Sorria. deixe a vida te contagiar



... A vida é um tesouro que não temos o direito de desperdiçar. Ela é o instrumento que dispomos para aprender e realizar. Superar as adversidades...


Antonio Pereira Apon.


Menino e o Cachorro, pintura de Bartholomé Esteban.


Trancado em seu escritório, mostrando aparente calma, aquele homem terminou de escrever um bilhete destinado à sua família. Abril uma gaveta da escrivaninha, de onde tirou uma pistola. Encostou a arma no ouvido e estava pronto para apertar o gatilho, quando risadas vindas da rua chamaram sua atenção. Chegando na janela, observou um maltrapilho catador de materiais recicláveis brincando com dois cachorros. Ele saltitava e gargalhava com grande e contagiante alegria Entre aqueles animais sujos e maltratados...


Após alguns minutos contemplando aquela cena. O cidadão tornou a pistola à gaveta junto com o bilhete, abriu a porta e pediu a um empregado que desce de comer àqueles cães e lhe trouxesse o sorridente personagem.


O visitante apresentava traços finos e olhar sereno, porém muito castigado pelos sofrimentos.


Após longo silêncio, o anfitrião pediu ao convidado que sentasse e disse:


- O Senhor deve estar se perguntando o motivo pelo qual te chamei. É que fiquei intrigado com seu contentamento. Fiquei me perguntando, qual o motivo de tanta alegria para um pobre homem que cata lixo e tem por companheiros dois vira-latas. Seu sorrir me chamou a atenção pelo entusiasmo e satisfação. Soou-me um sorriso de autêntica e grande felicidade. Felicidade que tive em raros momentos. Me senti de alguma forma contagiar por ele.


- Doutor. Aprendi que por si só, a vida já é um grande motivo para sorrir.


- Como?


- Eu tinha 42 anos, quando meu patrão, com quem trabalhei por mais de 20 anos, forjou um fragrante de roubo e me demitiu por "justa causa" para não pagar meus direitos. Depois, arrumei um advogado desonesto, que recebeu dinheiro da empresa para perder minha causa. Sem conseguir mais emprego em lugar algum. Caí na bebida e outras drogas. Um dia quase fora de mim, preparei um murro para dar em minha mulher... Foi nessa hora que eu achei que não dava mais. Peguei tudo que era remédio que encontrei em casa e preparei um "coquetel mortal", juntei tudo com cachaça e água sanitária e bebi. Fui levado pro hospital em situação desesperadora, fiquei em coma por três dias. Foi nesse estado que vivi o que o pessoal chama de "Experiência de quase morte (EQM)". Vi-me num lugar onde espíritos suicidas padeciam sofrimentos atrozes. Eram cenas dantescas que nem nos piores pesadelos ou nos mais macabros filmes de terror alguém poderia conceber. Vi diversos, mentalmente ligados aos despojos, sentindo todo o processo de decomposição ou se debatendo loucamente, revivendo num loop sem fim o momento da cremação. Só ali eu entendi que a morte não é um fim e que apesar de qualquer coisa. A vida é um tesouro que não temos o direito de desperdiçar. Ela é o instrumento que dispomos para aprender e realizar. Superar as adversidades, fraquezas e o desânimo. Quando eu estava retornando, ouvi uma voz dizer para mim: "Sorria! Sorria sempre para a vida para que a vida possa sorrir para você". Quando acordei. A primeira coisa que enxerguei foi o sorriso do médico dizendo: "nunca vi antes um paciente retornar do coma com um sorriso nos lábios. Seja bem-vindo de volta à vida!".


Lágrimas e sorrisos selaram uma amizade entre aqueles homens que um dia se permitiram contagiar por um sorriso. O sorriso da vida.



(Postado aqui em 25 de agosto de 2011).


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