Casos do Pelô



No começo dos anos noventa, meus alunos se divertiram encenando essa sátira bem baiana. Numa irreverente homenagem a Salvador.


Pelourinho.


Dois homens discutem em pleno Largo do Pelourinho:


- Rapaz, que história é essa? Minha noiva vai ao seu terreiro e o Senhor Vai logo beijando e apalpando?

- Não!.. Eu sou um Umbandista, Budista, Sincretista, Candomblezeiro sério! Mas não posso me responsabilizar pelos atos do caboclo beijoqueiro.

- Que caboclo nada rapaz! Você é um discaradista, safadista, enganista aproveitador. Mas agora quem vai se acertar com você é o meu caboclo.

O noivo ofendido, incorpora a entidade:

- Tudo bem misifiho?

- Tudo na paz meu santo, mas o seu cavalo anda desconfiado da seriedade do nosso trabalho e da dignidade do iluminado caboclo beijoqueiro. Eu gostaria que o Senhor Como guia dele, lhe mostrasse a verdade.

- Vósmicê sabe quem sou eu?

- Não meu santo. Qual a sua graça?

Sacando um facão, o “caboclo” respondeu:

- Eu sou o caboclo decepador!!!


O noivo “incorporado” sai perseguindo o pai de santo enquanto uma turista fotografa o Pelô e é abordada por um paquerador:


- Bom dia princesa!

- Good morning!

- Gude morna?! Só botando para esquentar, gude no Brasil é tudo fria, é de vidro!

- Do you speak ingles?

- Não o Dú não espichou nenhum inglês, ele espichou foi um baiano mesmo; o sujeito se meteu a besta, o Dú enfiou-lhe a peixeira e o cara ficou lá espichadão.

- I'm no speak portuguese!

- Claro que o Almir não espichou nenhum Português! Ele é crente! E anda correndo por ai o boato de que ele é boiola, gay, frutinha por convicção.

- I'm busy!

- Não é abuso não gatinha! É xaveco mesmo!

- Solon bye bye.

- Que gringa doida, leva uma bela de uma cantada e vem falando de gude morna, do Dú, do Almir e ainda me diz: "solou! Vai vai!". Eu lá tenho cara de bolo para solar?.. É cada uma que me aparece por essas bandas. Mas deixa dar os meus pinotes porque, quem come pilha é radio.


O Paquerador “pinota” desconsolado, dois amigos conversam:


- Para você ser um guia turístico, precisa conhecer a História e os costumes da cidade. Por exemplo; porque essa região se chama Pelourinho?

- Sei lá! Vai ver, alguma dona tinha um papagaio, e ficava o tempo todo: dá o pé lourinho, dá o pé lourinho, pé lourinho...

- Não é nada disso rapaz! Pelourinho era o tronco onde os escravos eram açoitados aqui no largo. Agora me diga, quem foi o primeiro governador geral do Brasil?

- ACM claro!

- Foi Tomé de Souza ignorante! Mas agora me diga; quem é o autor de Gabriela?

- Não me meta em bolo não! Eu lá sei quem é o pai dessa tal de Gabriela! Eu que não sou! E não faço nenhum exame de DNA, CPF, FHC, ou seja, lá o que for.

- Gabriela é um personagem criado por Jorge Amado seu burro! Olha, vou te fazer só mais uma pergunta; como são conhecidas as divindades do candomblé?

- Orixás!

- Finalmente!!! Pelo menos uma você acertou!

(2) - Mas eu não gosto desse negócio dos caras ficarem babando nos santos.

- E quem é que baba em santo?

- O pai de santo não é chamado de baba no orixá?

- Babalorixá seu jumento!!! Para mim chega! Vou ali tomar meu cravinho e você que fique bem longe de mim, pois quem com jegue se mistura, capim come.


Dois gays:


- Você é uma bicha muito baixa.

- Bicha não!!! Eu sou é gay de pai e mãe! Bicha baixa é anão transformista.

- Mas você vive armando barraco lá no Maciel.

- Eu sou a poderosa! Eu sou a boa! Mexeu comigo; eu puxo a navalha, rodo a baiana, subo nos tamancos e vou ralando na boquinha da garrafa.

- Você devia ser mais discreta.

- Gay discreto é ruim em! Eu quero brilhar, purpurinar, eu quero aparecer!


Alguns turistas e um vendedor de lembranças da Bahia:


- Comprem! Comprem! Lembranças da Bahia: tem berimbau genuinamente baiano importado do Paraguai, tem camisinha Oxumaré a que não tem preconceito; para homem, mulher e coluna do meio, tem a nova linha de perfume "banho de abô"; perfuma, afasta mal olhado, quebranto e espinhela caída.

- O senhor não tem fitinha do Bonfim ou figa?

- Não, nós não usamos mais essas coisas, entramos na era da tecnologia, tenho aqui o mais novo produto do centro candomblecista umbandologico da Bahia; o tele axé. Um celular com linha direta para os orixás e guias da boa terra. Você paga 200 dólares e seu telefone será automaticamente habilitado no próximo dia 30 de fevereiro.


Dois transeuntes:


- Você devia mudar seu nome para preguiça...

- Preguiça não, é baianidade explicita. Eu ando é muito cansado.

- Cansado de que, nada?!

- Levantamento de copo, espreguiçamento na rede, flerte à distância...

- É por causa de gente como você que ficam dizendo que nós baianos somos uns vida mansa, vai trabalhar vagabundo!

- Não posso. É uma questão de princípios, eu sou um dos últimos baianos genuínos, tenho que resgatar a tradição malemolente dos baianos da gema.

- Você não passa é de um boa vida. Mas, religião, você tem alguma?

- Como bom baiano eu sou católico apostólico Candomblezeiro e quando tomo uma cachaça errada, vou lá nos crentes me entregar ao Senhor para livrar minha cara.

- Que mistura é essa?

- Eu sou filho de Oxalá e acendo minhas velinhas para o Senhor do Bonfim, faço meus ebós mas não perco novena, trezena, quarentena, procissão, cortejo, vigília, corrente...

- Você não tem jeito! ...



Terra de beleza e graça,

crenças, músicas,

poetas e praças.

De sangue o passado escrito,

ganha cores de um tempo bendito,

num conspirar de luz em flor.

Entre vielas e becos,

no peito dessa cidade,

bate um coração,

no compasso dos tambores,

na ginga e na dança,

nos amores de um povo,

que inspiras e acalentas.

Pelourinho,

povo,

Salvador.


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Foto do autor: Antonio Pereira (Apon).


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Comentários

  1. Inspirado, hein, Antonio! Ri e refleti no inglês aportuguesado, mal e porcamente pelos "analfas"... tragicômico!!
    Abraço, Célia.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. E o pior é que (guardadas as devidas proporções), "a arte imita a vida". É rir para não chorar.

      Um abração e uma boa semana.

      Excluir
  2. Olá meu amigo,

    Diamantes têm várias facetas, hoje conheci mais um lado seu. Legal.

    Brincadeiras à parte, eu também adoro a Bahia e o povo baiano. tenho bons amigos neste lugar. Gente que trabalha muuuito...

    Grande abraço

    Leila

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Professor tem que se multiplicar, fazer um pouco de tudo. E de fato, o baiano trabalha muito. O mito da preguiça baiana é puro folclore, um marketing meio torto.

      Um abração e uma boa semana.

      Excluir
  3. Olá, Antônio!

    Que textos humorísticos! Adorei e ri a bom rir.
    Há termos que eu não entendi, confesso, mas a ideia geral, eu percebi.

    É salutar saber fazer graça com nossa terra, nossos costumes e até nosa maneira de ser.
    Então as pessoas naturais da Baía, são lentos, preguiçosos, né, como os Africanos, não?
    Sabe António, Portugal está dividido em províncias e eu nasci no Alentejo, que é uma delas (além Tejo - rio Tejo, óbvio) ou seja, a última, antes do sul de Portugal. A última se chama de Algarve. Então nós somos apelidados de preguiçosos, lentos, não gostamos de trabalhar e somos muito pouco "inteligentes". Só que isso não nos afeta, absolutamente nada, porque nós, até criamos anedotas e as contamos a nosso respeito. Veja bem, a liberdade do nosso horizonte, do nosso pensamento.

    Agradeço e retribuo seus votos.
    Feliz semana.

    Abraço da Luz, com amizade.

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    Respostas
    1. Não, os baianos não são preguiçosos. Esse estereotipo foi criado por alguns artistas e outros menos cotados, com a intenção de explorar a imagem da Bahia e da baianidade, como um balneário paradisíaco onde tudo é festa, folclore e vida mansa. O preconceito ainda residual do escravagismo, tenta pintar um retrato caricato dos negros, forjando uma indolência e desinteligência divorciadas da realidade. Somos um país mestiço, em grande parte, construído pela valorosa força dos negros. Temos um povo festeiro, carnavalesco... Mas trabalhador, cumpridor dos seus deveres em sua imensa maioria, uma gente que conserva grande parte do legado cultural de seus antepassados. Mesclando o antigo e o moderno, ainda resistindo à pasteurização midiática.

      Um abração querida amiga. E vamos sorrir!

      Excluir
  4. Olá.
    Nossa ,muito legal seu blog, gostei bastante, parabéns.
    Estarei sempre por aqui.
    Até mais

    ResponderExcluir
  5. Oi Antonio,

    Que beleza! Adoro a Bahia,o mar, o povo, a cultura, a comida...
    Enquanto lia os textos, imaginava as cenas!
    Divertido! Inteligente!
    Parabéns!
    Tenha um lindo dia!
    Beijos!

    ResponderExcluir

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Antonio Pereira Apon.

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