A presença da ausência



... A miopia do ter, vai embotando a realidade, entorpecendo os sentidos materializados, insulando a criatura em seus hiatos delirantes... Diversamente, outros não tardam "lambendo as feridas" imaginadas pela própria imaturidade existencial...


Antonio Pereira Apon.


A Aula de Anatomia do Doutor Tulp (Pintura de Rembrandt).


Há quem viva se lamuriando por faltas e ausências meramente artificiais e artificiosas. Apercepção de uma vaidade orgulhosa, futilmente egoísta. Tem gente que reclama da vida e se maldiz, por não poder ter o carro dos sonhos, aquela casa maravilhosa, o emprego mais endinheirado; por não ter uma mulher dessas de capa de revista, por não tirar a sorte grande na loteria, não poder fazer aquela viagem espetacular, não ser famoso nem consumir determinada marca... A miopia do ter, vai embotando a realidade, entorpecendo os sentidos materializados, insulando a criatura em seus hiatos delirantes.


De outro lado, temos pessoas lutando para sobreviver, viver e conviver com verdadeiras faltas e ausências compulsoriamente tão presentes: A orfandade, a fome, o desabrigo, o “não ter nada” e conseguir “perder tudo”, o “perder” um filho, o grande amor... Amputar um membro, perder um dos sentidos, a lucidez... Uma doença terminal, uma condenação injusta... E muitas dessas pessoas, buscam a superação, reinventando a alegria, garimpando a felicidade possível. Diversamente do primeiro grupo, não tardam “lambendo as feridas” imaginadas pela própria imaturidade existencial.


Na vida, bastam as ausências e faltas inevitáveis, não precisamos nem devemos cultivar miragens e quimeras que só servem para afligir o espírito, desaproveitar a dádiva do tempo.


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Comentários

  1. Penso que todas as pessoas têm problemas,não posso medir a dificuldade de cada qual. É a condição humana a origem dos problemas. Um abraço, Yayá.

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    1. Cada qual tem sua cota natural de problemas, alguns insensatamente,acrescentam dificuldades fictícias e vivem perseguindo "necessidades" desnecessárias.

      Um abração e um bom final de semana.

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  2. Olá, António!

    Concordo inteiramente com você.

    O quadro foi escolhido a dedo, não foi? Não me lembro quem é seu autor. Me diga, quando tiver tempo, de quem se trata, porque eu sei que o quadro tem um nome, a cena, lá, e quem o pintou, também, naturalmente.

    Tenho que confessar para você que, por vezes, sou ambiciosa, mas não de querer ter mais dinheiro, porque o que eu ganho me é suficiente, ter carro, também NUNCA quis ter, porque, para além da minha inoperância para máquinas, detesto, conduzir, seja o que for, mas pela beleza, sim, a exterior, António, e faço questão de me apresentar com sedução DECENTE e boa aspeto.

    Há dias em que me acho "linda de morrer" , mas há outros em que, não me sentindo, propriamente uma "desgraçadinha", me acho sem graça (deve ser próprio da mulher, eu acho).

    Eu sei que ninguém atinge seus objetivos vivendo de quimeras e fantasias, isso é para o carnaval, mas eu sou bastante imperfeita, tenho de confessar, nesse aspeto.

    Lindo fim de semana.

    Aquele abraço!

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    1. A busca do ter, por si só não é o problema. Problemático é transformar isso numa obsessão, numa ambição desmedida.

      O desejo por coisas materiais, dentro dos limites do possível de cada um, sem tentar "colocar o chapéu onde a mão não pode alcançar". É natural e salutar. Porém, quando a ostentação, o orgulho a inveja ou outras patologias do comportamento, passam a ditar nossos quereres, aí a coisa complica.

      Com relação a vaidade, sobretudo a feminina, na dose certa, empresta graça e torna mais bela a vida. Os excessos geram caricaturas siliconadas, espichadas com botox e outros truques quase franksteinianos. Rs rs rs...

      Quanto a pintura, trata-se do quadro "A Aula de Anatomia do Doutor Tulp" (1632), um dos mais famosos trabalhos de Rembrandt. Escolhi essa imagem ainda antes de terminar o texto. Ela sintetiza bem a dicotomia matéria/espírito que caracteriza a condição humana. Esquecidos da nossa essência espiritual, muitos se embaraçam nas materialidades transitórias, que como o próprio corpo, não acompanham o ser para além dessa vida.

      Um abração e um bom final de semana.

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    2. Oi, António!

      Tem toda a razão, você.

      Eu gosto de ter boa apresentação, mas de forma natural, nada de silicone, nem de artificialismos.

      Obrigada por me ter dito o nome da pintura, porque eu quase que iria apostar que era da autoria de Rembrandt.

      Feliz domingo e melhor semana.

      Aquele abraço.

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  3. Realmente, Antonio, você analisa com muita propriedade em que se transformou o humano. Sua busca desenfreada por ter e consumir, em geral, sempre o que o outro tem. Os bens do outro, a mulher do outro, os filhos do outro, as férias do outro... E, por ai vai... Há toda uma bestialidade em busca de comprar o prazer que isso traça o diagnóstico: miopia e autismo social... Parabéns pela excelente reflexão!
    Abraço,
    Célia.

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    1. As "necessidades" desnecessárias vão ocupando um espaço indevido e o ser vai perdendo o foco do existir. Quando se dá conta do tempo perdido...

      Obrigado. Um abração e um bom final de semana.

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  4. Meu amigo

    Um texto muito verdadeiro, por vezes não vemos o que temos ao lado e queremos o que está distante de nós.
    Feliz 2014

    Um beijinho com carinho
    Sonhadora

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    1. Muitos tentam viver uma realidade autista, se perdendo entre suas voluntarias miragens.

      Maravilhoso 2014. Um abração e um bom final de semana.

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  5. Oi Antonio,
    Belo texto!
    Refletir sobre comportamentos é tema de páginas e páginas!
    As vezes acho que a grande maioria "perdeu a noção", literalmente! Dizer para as pessoas que "está tudo bem", "está tudo certo", incomoda muito!
    Tenho a impressão que as pessoas esperam sempre ouvir queixas.
    Querido amigo, te confesso, esforço-me a não queixar-me! Sempre digo que está tudo ótimo! Pois acredito, que só pela palavra, já melhora a energia!
    Também quero muitas coisas, mas não sofro por isso!
    Tenha uma semana muito feliz!
    Beijos!

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    1. Saber querer, saber equacionar o ter e o ser. Eis o grande "barato" da vida, a arte do bem viver.

      Um abração e uma maravilhosa semana.

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Antonio Pereira Apon.

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