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quinta-feira, 23 de julho de 2015

Hebe, Narciso, Sísifo. Ser ou não ser? Eis a nossa humanidade





... Hipnotizado por aquele lindo rosto, apaixonou-se por si espelhado na água. Em vão tentou abraçar a encantadora imagem imersa. Exausto, seu corpo deitado ao solo, foi desaparecendo, dando lugar, a uma flor amarela com pétalas brancas no centro. O Narciso. Pois é, assim também a humanidade vai se apaixonando por sua imagem imaginária refletida nos espelhos da cosmética e todo tipo de artifício...


Narciso admirando sua imagem refletida.


O ser humano vem se tornando uma mal rascunhada caricatura mitológica, frankensteinianamente misturando traços de figuras lendárias: Como Sísifo, vamos tentando enganar a morte. E qual Narciso, apaixonados por nós mesmos, perseguimos a juventude eterna da deusa Hebe.


Entre avanços da ciência e artificiosos paliativos estéticos, a humanidade vai de: peeling disso, daquilo e daquilo outro; radiofrequência reaction, glicerol, fenol, laser de co2 fracionado, revitacell, esfoliantes, máscara despigmentante, lifting, microrroller, preenchedores de volume, toxina botulínica (vulgo, Botox), plásticas até onde se possa imaginar, lipoaspiração, cremes mil, ácido hialurônico, glicólico, retinóico, “paranoico”... E a ditadura da “vida eterna”, segue de medicina ortomolecular, persegue os radicais livres, vai de dietas, chás, sucos, fitoterápicos, panaceias, urinoterapia, auto-hemoterapia, isoterapia, suplementos, shakes, fitness; todo estrangeirismo e qualquer modismo que alimente a mitológica ilusão da perfeição e beleza imorredoura. A busca pela saúde, apenas serve de pretexto para esconder essa febre, essa obsessão insana contra os inevitáveis: Envelhecimento e morte.


Visitando a mitologia grega, encontramos Hebe, a deusa da juventude, filha de Zeus e Hera. Dotada da eterna juventude, representava a donzela consagrada aos trabalhos domésticos. No Olimpo: Cuidava do banho de Ares, ajudava Hera a atrelar seu carro, servia néctar e ambrosia aos deuses. Certo dia, caiu numa posição, digamos, inadequada. E a divinal moçoila, tão invejada e ambicionada pela humanidade moderna, deu um basta naquilo. “Cansou” de dançar com as Musas e Horas (não as do relógio. Mas as deusas que presidiam as estações do ano: Eumônia, Têmis e Dice. Porteiras do Olimpo), no embalo da lira de Apolo. Casou com Hércules, quando foi tornado imortal. O trabalho de Hebe sobrou para o mortal Ganímedes. Já Narciso. Conta-se que quando nasceu, sua mãe consultou Tirésias, tendo a predição de que o recém-nascido viveria muito, desde que jamais encarasse a si mesmo. O moço cresceu cada dia mais belo, despertando e desprezando o amor de todas. Um dia, ele descansava no bosque, acordando intensa paixão na ninfa Eco. Rejeitada. Tome-lhe uma maldição: Narciso amaria com a mesma intensidade, sem ter o seu amor correspondido. Nêmesis, divindade punidora, ouvindo, atendeu prontamente. Numa fonte intocada, inclinando-se para beber água, Narciso viu seu reflexo e encantou-se com sua beleza. Hipnotizado por aquele lindo rosto, apaixonou-se por si espelhado na água. Em vão tentou abraçar a encantadora imagem imersa. Exausto, seu corpo deitado ao solo, foi desaparecendo, dando lugar, a uma flor amarela com pétalas brancas no centro. O Narciso. Pois é, assim também a humanidade vai se apaixonando por sua imagem imaginária refletida nos espelhos da cosmética e todo tipo de artifício.


Por fim, a terceira devoção hodierna: “Passar a perna na morte” numa imitação de Sísifo. Zeus enviou Tânato, deus da Morte, para levá-lo. Mas, ardiloso, Sísifo o enganou. Na lábia, caiu de elogios e lisonjas a sua beleza. A pretexto de enfeitar seu pescoço com um colar, tacou-lhe uma coleira, prendendo a Morte e se safando pela primeira vez. Por algum tempo ninguém morreu, com Sísifo driblando a Morte. Porém, contudo, todavia, Hades, deus dos mortos, e Ares, deus da guerra, careciam dos “servicinhos” da dita cuja. Assim, Hades “jogou areia no brinquedo”; libertando Tânato e encomendando a ida imediata de Sísifo para as mansões da morte. Despedindo-se de sua mulher, cochichou-lhe que não enterrasse seu corpo. Chegado ao inferno, Sísifo reclamou com Hades o desrespeito em não o enterrarem. Então suplicou por mais um dia para se vingar da ingratidão e cumprir o rito funério. No que Hades consentiu. Sísifo reassumiu seu corpo e “caiu no mundo” com sua amada. Deu 2 x 0 na Morte. Terminou morrendo de velhice, sendo sua alma escoltada por Hermes a mando de Zeus. No tártaro, foi castigado junto com outros por rebeldia. A pena por suas “gracinhas”? Foi condenado, por toda a eternidade, a rolar uma grande pedra de mármore com suas mãos até o topo de uma montanha, e toda vez que ele estava chegando lá, a pedra rolava de volta ao sopé. Resultado: Trabalho inútil! Assim a busca humana da beleza e da vida eterna num corpo perecível. Vamos cuidar da saúde e do bem estar, mas sem quimeras e ilusões. Vamos curtir a vida como ela é e pode ser. Envelhecer e morrer fazem parte dessa nossa passagem pela Terra. Esse corpo é “apenas” a veste que nosso espírito despe para se vestir de infinito.


Sísifo rolando sua pedra montanha acima.



Foto do autor: Antonio Pereira (Apon).


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2 comentários:

  1. Olá meu caro, vim deixar-te um abraço pelo doa do escritor.

    Gosto mito da mitologia grega e é perceptível o quanto podemos aprender com ela. Muito real a relação doentia das pessoas com o culto à beleza e à juventude. Investe-se muito tempo para prolongar a vida. Vida? Vida que vida? Essa paranóica de não poder envelhecer nem morrer? Isso não é vida, muito menos viver.

    Grande abraço

    Leila Rodrigues

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    Respostas
    1. De fato, o ser humano vive perseguindo quimeras e distorcendo o real sentido da vida. Cultuando a aparência fugaz e descuidando da essência imortal e duradora.

      Um abração e uma boa semana.

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Antonio Pereira Apon.