No Brasil, o calendário diz uma coisa, mas a realidade diz outra. Confira essa reflexão em forma dessa minha poesia, musicada no Suno AI, sobre a "anestesia coletiva" e o despertar tardio de um país que só começa a engrenar após o Carnaval. Entre serpentinas que viram resto e o silêncio da Quarta-feira de Cinzas, a obra mergulha nas consequências da folia, na politicagem que não faz jejum e na nossa eterna mania de empurrar o começo do ano com a barriga. Uma análise visceral da nossa engenharia social, onde o ano já nasce cansado, mas ainda assim, novo.
Depois das Cinzas!
No Brasil, o ano não nasce em janeiro;
o parto é tardio,
só pra lá de fevereiro.
A serpentina vira resto,
a quarta, em cinzas pede silêncio,
a vida, para muitos;
resolve começar.
Só depois do carnaval, a aula vira aula,
a dieta parece prometer,
o cigarro inculpa,
a bebida avulta,
o espelho do culpado cobra.
Depois, só depois,
é que se enxerga a dívida,
desafora o boleto,
se desamarra o nó da fascinação.
Mas nem todos escapam ilesos;
no corredor polonês da ressaca coletiva:
para alguns, o diagnóstico;
teste positivo,
DST em tratamento,
barriga crescendo sem sobrenome;
filhos da solteira folia.
Uns nascem sem pai,
outros nem nascem...
Hora de visita no hospital,
na Casa de Tia Déte,
Ou quem se apressou para a terra dos pés juntos.
Sem falar na virose que sobra,
na conjuntivite que abunda;
ziquiziras democráticas
da aglomeração caótica.
Passado o confete,
segue a propaganda oficial,
fantasiando a realidade
com maquiagem de mentira,
lorota de verdade.
Seguem os politiqueiros,
fazendo na vida pública,
o que sempre fizeram na privada.
E o povo?
Já ensaia o próxima fuga:
Sonha com a semana Santa,
delira com o São João,
um feriadão, uma qualquer redenção
que anestesie o pensar.
Viva o carnavalesco povo brasileiro!
Evoé!
Aqui, ano novo não é coisa de calendário:
é lendário ponto de vista.
Há quem jure em primeiro de janeiro,
mas tudo acontece mesmo
só pra lá de fevereiro.
Após Noel roubar a cena
do Jesus da manjedoura;
atravessada a pasmaceira
dos janeiros absortos,
vem o carnaval cerrar o verão
prenunciar as águas de março:
“É pau, é pedra, é o fim do caminho”.
Então a tupinicalha desperta:
no calar do samba,
no silêncio do trio,
na fantasia em pó;
o enredo fina,
a realidade puxa o bloco,
desfila o ano novo atrasado.
Acabou o carnaval!
Mas a suruba do poder,
essa nunca faz jejum,
segue atravessando a harmonia;
num compasso triste,
infame melodia.
A sobrevivência?
Alienação do parco pão,
do farto circo.
Ração ideológica,
ruminar do devaneio popular.
Se Einstein explicou a relatividade,
no Brasil nós a superlativamos:
tempo e espaço contorcidos,
distorcida engenharia social;
empurra com a barriga o começo do ano,
pra depois da anestesia coletiva.
A miragem dormita,
a ilusão boceja...
Enfim, desperta o ano novo:
tardio, cansado,
já velho de tão retardado.
Mas, ainda assim, é novo.
Até fevereiro voltar.
Acorda!
Feliz ano novo!
Shalom.
Salam-aleikum.
Namastê.









