Quem, qual a sua Nêmesis?



... surreal realidade, onde, muitas vezes, induzidos pela irreflexão, ignorância, acomodação mental ou mera falta de noção, saímos elegendo nossas “Nêmesis”, inimigos de estimação, contra os quais tornamos imperioso combater, vencer, punir, vingar. Afinal, “o inferno são os outros”...


Antonio Pereira Apon.



Nêmesis, pintura de Georghe Tattarescu.


Na mitologia grega, Nêmesis era uma deusa da segunda geração, filha da deusa Nix. Sendo inclusive, citada como filha de Zeus com a deusa Têmis. Apesar de nascida entre os deuses trevosos, vivia no monte Olimpo, corporificando a vingança divina. Com o passar do tempo, a palavra passou a designar algo ou alguém que merece, reclama exemplar retaliação: Inimigo odioso, adversário terrível, opositor desprezível...


Incumbida de punir o descomedimento, combater o excesso de felicidade, vaidade, soberba, orgulho dos reis. Nêmesis, exemplifica seu caráter, castigando Creso, rei da Lídia. Homem muito feliz com suas riquezas e com seu poder, foi levado à guerra contra Ciro, rei da Pérsia. Sendo derrotado, arruinado e por demais infelicitado. Já Narciso, superlativamente alegre, vaidoso de sua beleza singular, se achava, desprezando o amor de incontáveis ninfas. Para vingá-las, Nêmesis provocou demasiado calor, fazendo o moço se debruçar sobre um lago de águas cristalinas para matar a súbita sede. Onde, contemplando seu belo rosto, tomou-se de amores pela própria imagem. Incapaz de alcançar o objeto daquela arrebatadora paixão, definhou até morrer, transmutando-se em flor. O narciso.


“Teletransportando-nos” da mitológica Grécia para a ficção do século XXIV, estamos em “Nêmesis”, episódio de “Star Trek: Voyager”, que me inspirou a escrever essa nossa prosa. A nave auxiliar do comandante Chakotay foi abatida. Sozinho em meio a uma selva, daquele planeta alienígena, Ele foi capturado por tropas dos humanoides Vori, chefiadas por Brone. Supostamente liberado ao confirmar-se não ser ele um "inimigo", ao amanhecer, Chakotay tenta encontrar sua nave, defrontando-se com um dos tais "inimigos", os Kradin, tidos como bestas ferozes, inumanas. Não encontrando a nave, ele retorna, se junta aos Vori, pensando entender o que eles enfrentam. Na luta contra os Kradin, ele supõe o mal do inimigo: Eles zombam dos rituais religiosos dos Vori, mandam toda uma vila pacífica dos Vori para campos de extermínio… Nesse ínterim, a Voyager orbita o planeta, incapaz de localizar Chakotay. Contactando os amistosos Kradin, conseguem ajuda para resgatar seu primeiro oficial. Por sua vez, os Kradin explicam que estavam lutando contra uma força monstruosa, os Vori, a quem eles igualmente tratavam como "inimigos". Uns eram reconhecidos como a “nêmesis” dos outros. Tuvok desce para o planeta e resgata Chakotay, que sem saber, havia sido submetido a uma simulação, elaborado programa de lavagem cerebral para transformá-lo num soldado Vori, doutrinado para acreditar na “monstruosidade” dos Kradin. De volta a Voyager , o comandante é defrontado com uma realidade diversa sobre os Kradin. Eles não eram necessariamente as entidades trevosas que ele tinha sido condicionado a acreditar. A capitão Janeway confessou sua dúvida quanto ao certo e errado do conflito. Contudo, foram os Kradin que ajudaram a devolvê-lo à Voyager . O embaixador Kradin visita Chakotay na enfermaria, mas, ainda afetado pelo condicionamento Vori, ele não consegue disfarçar seu desconforto. Sai e confidencia com a Capitão Janeway: Deseja que seja tão fácil parar de odiar como foi para começar.


Voltando a nossa surreal realidade, onde, muitas vezes, induzidos pela irreflexão, ignorância, acomodação mental ou mera falta de noção, saímos elegendo nossas “Nêmesis”, inimigos de estimação, contra os quais tornamos imperioso combater, vencer, punir, vingar. Afinal, “o inferno são os outros”. Coxinhas e mortadelas, israelenses e palestinos, católicos e protestantes, esquerda e direita, negros e brancos, muçulmanos e cristãos, pobres e ricos, gays e héteros, torcida… Eclipse da sensatez, aborto da razão, depravação do sentir. Porque tornamos tão fácil odiar e tão difícil parar?


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Comentários

  1. Estamos engatinhando no quesito "parar de odiar" , nossa, vemos isso acontecendo de forma assustadora!
    Nos meios sociais, nos meios de comunicações, de modo geral só se lê pessoas agredindo, difamando sem nenhum critério!
    Que pena que é assim!
    Amei ler aqui, adoro também, assim como você,mencionar mitologia para mostrar que muitas coisas não mudam muito, quase nada!
    Abraços amigo Antonio!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. É realmente uma pena, que a humanidade tarde na insensatez, apercebida de que não teremos um mundo melhor, enquanto não nos tornarmos pessoas melhores. O outro deve ser nosso irmão, não nossa Nêmesis.

      Um abraço.

      Excluir

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Antonio Pereira Apon.

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