O dia em que Marijoel foi abduzido



... esse excesso de feiura não era real e sua baixa estima é que estragava tudo. Nosso amigo era do tipo: "não era belo, mas mesmo assim, havia mil garotas afim...". Só ele não percebia...


Antonio Pereira Apon.


Nave decolando.


Pobre é pródigo em "criatividade" na hora de dar nome a filho, faz uma combinação com os nomes dos pais, ou empurra-lhe um nome estrangeiro. No caso dos servidores públicos, Marilia e Joel, a escolha foi caprichada, juntaram as duas opções e batizaram seu rebento de: Marijoel Clayderman da Silva.


Não sei se era trauma por conta do nome, ou outra coisa qualquer; Marijoel era extremamente tímido, considerava-se muito feio, o complexo era tanto, que ele só olhava para o espelho de óculos escuros. Assim, ficava difícil arrumar uma namorada.


Mas esse excesso de feiura não era real e sua baixa estima é que estragava tudo. Nosso amigo era do tipo: "não era belo, mas mesmo assim, havia mil garotas afim...". Só ele não percebia isso.


Nessa paranoia estética, a internet pareceu-lhe a solução, o "chat" seria a sua salvação.


Todo dia estava ele lá em frente ao micro, "chatea" daqui "chatea" dali, quando um belo dia surge sua "cara-metade" virtual, logo trocaram a sala de bate-papo por um "Messenger" e a coisa parecia caminhar para um namoro real. Ela se chamava Esterlanda Coniff, era profissional liberal e morava na mesma cidade do nosso problemático personagem. Ele não escondeu seu complexo, mas omitiu a timidez, ela se mostrava inteligente, desinibida e dizia não preocupar-se com a beleza física, mas com o interior das pessoas.


Por sugestão dele; não trocaram telefones ou fotos. O rapaz dizia que quando fosse o momento certo, se conheceriam pessoalmente. Passadas duas semanas, ela achou que já era momento de se encontrarem de verdade, marcaram no shopping e ele não apareceu, inventou uma desculpa e adiou por mais dois dias o tal encontro, por mais duas vezes o fato se repetiu e a moça deu o ultimato: - Ou você aparece hoje, ou me esquece.


Aquele dia foi um terror para o sujeito, ele suava frio, só de olhar o relógio, e como para todo paranoico, paranoia pouca é bobagem, Marijoel começou a viajar nas neuras: Será isso? Será aquilo? Esse negócio de profissional liberal... Será que ela é uma garota de programa? Será um travesti?..


Na verdade, seus fantasmas interiores, colocaram o homem em parafuso, o medo sufocava o sentimento e um e-mail lhe pareceu a saída: "Desculpe, acho que tudo foi uma ilusão, essa coisa de internet não dá certo mesmo. Guarde na lembrança as palavras bonitas que trocamos, faça de conta que fui abduzido, levado para um planeta distante...".


No dia seguinte, talvez devido à ansiedade da véspera, o infeliz teve um pirepaque e foi parar na emergência. Medicado, por estar com pressão alta, ele foi colocado em observação. Passados 45 minutos, uma médica, belíssima mulher de cabelos castanhos claros e olhos de um verde raro, olhou firmemente nos olhos do paciente e sem dizer uma palavra sequer, o auscultou, aferiu sua pressão arterial e retirou-se. Em seguida, uma enfermeira informou a Marijoel, que os médicos já o tinham liberado e orientado que procurasse um clínico, para investigar melhor a causa do seu aumento de pressão.


Em casa, atormentado por seus dilemas existenciais, aquele torturado ser, deparou-se com uma mensagem eletrônica da sua agora ex-futuranamorada: "Aqui é a extraterrestre, que hoje assistiu sua abdução, não te achei nada feio, e ainda que o fosse, não deixaria de namorá-lo por isso. Mas como você foi abduzido, as regras não permitem envolver-me com espécimes estudados, sobretudo os da raça: "idióticus humanus". Adeus. Dra. Esterlanda Coniff.".



(Postado aqui em 18 de agosto de 2007).



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Comentários

  1. kkkkkkkkkkk...que onda!!!
    O medo faz com que não se viva!! A neurose é uma doença horrível!!

    Beijinhos Iluminados!!
    Paz e Luz!!

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  2. Olá Antonio!

    Pior, é que quase todos já passamos por um dia de "Marijoel"!
    Adorei o texto!
    Bjs! Tenha uma ótima semana!

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  3. Adoreiii... que pena que a timidez e a insegurança dele atrapalhou tudo...não se deu chance nem de tentar, fugiu e perdeu a oportunidade de amar e ser amado por alguém, no fundo se sabotou e pôs tudo a perder.
    Boa semana amigo...beijos
    Valéria

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  4. Sensacional, Antônio! Prendeu meu interesse pelo desfecho! Realmente a definição dada por você de "idióticus humanus" é perfeita! Não faria realmente um belo par com a Dra! Abraço, Célia.

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  5. Fantástico! menino... tu escreves bem pra caramba, e que tal o nome da doutora? bem exótico também rsss
    Adorei o final,comecei a rir aqui kkkkkkk muito bom!
    Beijos pra ti e boa semana!

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  6. Olá Roberta!

    O Medo é nosso grande Fantasma que nos manieta a vida roubando possibilidades.

    Um abração.

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  7. Bom dia Jossara!

    O importante é aprender a romper essas algemas psíquicas que tanto prejudicam quem se faz escravo de si mesmo.

    Um abração.

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  8. Olá Valéria!

    É lamentável, mas não é raro, as pessoas permitirem que seus “Monstros” interiores, devorem oportunidades reais.

    Um abração e boa semana para ti também.

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  9. Olá Célia!

    Na verdade, ela se livrou, não de uma mala, mas de um container sem alça. Rs rs rs ...

    Um abração.

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  10. Olá Isa!

    Surreal mesmo.

    Um abração e boa semana para ti também.

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  11. Oie Antonio,
    Nossa, me deu peninha dele... por medo e timidez, deixou de viver um grande amor.

    Menino, estou fazendo um sorteio em meu blog e vim convidar você a participar. Tem um recadinho lá especial a você.rsrs
    Ficarei muito feliz com sua participação.

    Beijos,

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  12. Olá Juliana!

    Ficou com pena? Leva ele pra casa! Rs rs rs...

    Quanto ao sorteio: Já divulguei no Twitter @aponarte e no Facebook. Aqui vai o link para quem mais desejar participar: http://t.co/IHYP5D02

    Um abração e parabéns pelos 3 anos do Blog.

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  13. Antonio, adorei o texto interessante, bem humorado. Amei seu blog e já estou te seguindo por aqui pra voltar mais rápido. Linda tarde, bjs.

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  14. Boa noite, Antonio. O Marijoel se preocupou tanto com a estética, que hoje massacra qualquer ser humano, que deixou de entender que o que tem dentro da nossa alma é com certeza mais importante.
    Não digo que a beleza física seja ruim, muito pelo contrário, mas não deve ser o que determina as nossas relações.
    Ela não possuía essa preocupação, e ele recebeu o título de idiota merecidamente.
    Quem sabe um dia, as pessoas valorizem mais o interior?
    Fique com Deus!

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Antonio Pereira Apon.

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