Tempo e amor



Mais um texto da década de 90, retirado do fundo do baú. Inspirei-me em “A ilha dos sentimentos”, atribuído a Reinilson Câmara, para escrever esse conto, essa mensagem, retrato dos desatinos humanos:


Ampulhetas voando.


O amor maltratado e ferido, ali largado no chão:


- Eu sou o amor. Os homens me feriram, maltrataram, me esqueceram aqui...


Passa o egoísmo com cara de paisagem:

- Egoísmo me ajude, preciso levantar daqui.

- Me desculpe amor! Mas agora estou com muita pressa, vou à praia pegar um bronze, não posso perder o saudável sol da manhã...


O fanatismo desfila com seu ar altista e desequilibrado:

- Me socorra fanatismo! Pelo amor de Deus, não me deixe aqui!.

- Olha amor, você vai me desculpar, está na hora de minhas orações. Mas não se aflija, nas minhas preces, rogarei ao Senhor que lhe envie o socorro celeste...


A inveja caminha com desdém:

- Inveja, me levante, por caridade...

- Sai dessa amor! Você não é o mais nobre dos sentimentos, o mais puro, o mais belo o mais mais? Então te vira! Eu sou muito insignificante para ajudar o grandioso amor...


A ambição saltita oportunista:

- Por favor, ambição, me ajude!.

- Favor eu não faço! O que vou ganhar se te ajudar?

- Nada tenho de valor material...

- Então nada feito, hoje em dia, nem relógio trabalha de graça.


O ódio marcha irado:

- Ódio, me ajude! Não me deixe aqui largado...

- Qual é de mesmo meu rei?! Tá pedindo arrego? Quero mais é que você se dane, a minha vontade é de lhe encher de pancada até acabar com sua raça. Mas para sua sorte, eu estou com muita pressa...


O orgulho galopa garboso:

- Orgulho, eu preciso da sua ajuda!..

- Nada posso fazer por você! Já pensou, se passa alguém da alta sociedade e me vê atracado ao moribundo? Não dá amor, tenho uma imagem a preservar, de repente aparece um desses repórteres sensacionalistas, e o desastre está feito. Não é nada de particular, quando você se recompor, voltamos a nos falar...


A vaidade “volita” fútil:

- Vaidade, já não suporto mais, me ajude!.

- Não posso amor, assim vou sujar e amarrotar minha roupa nova, desalinhar meus cabelos e borrar minha maquiagem; lamento, peça ajuda a outro.


Chega o tempo!

- Tempo, me ajude!.

- Venha meu filho!.

- Tantos passaram e não me ajudaram, porque você parou para me socorrer?

- Porque só o tempo é capaz de romper as cadeias do egoísmo que nos escravizam a nós mesmos.

Só o tempo apaga o fanatismo que cega e a inveja que enlouquece.

Só o tempo desmascara a ambição que envenena e o ódio que brutaliza.

Só o tempo dissipa a ilusão do orgulho e a embriaguez da vaidade.

E só o tempo para reconhecer e mostrar todo o valor do amor.



(Postado aqui em 20 de janeiro de 2013).



Foto do autor: Antonio Pereira (Apon).


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Comentários

  1. Antonio, que lindo poema/texto!
    Realmente, só o tempo faz as pessoas caírem na realidade, só o tempo!!!
    Grande abraço meu amigo poeta!

    ResponderExcluir
  2. adorei a cronica!
    bj
    http://opinandoemtudo.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  3. Oi Antônio,
    Que maravilha de texto,gosto tanto de ler coisas que nos engrandecem,esse texto é a prova disso.
    Só mesmo o tempo pra nos mostrar o novo,nos acolher ou caminhar ao nosso lado.
    Uma ótima semana,abraço,=)

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  4. Oi Antonio!

    Maravilhoso!
    Sentimentos que envenenam, cegam, sufocam!
    Enquanto isso perde-se o tempo de amar, que por vezes nem mesmo o tempo recupera!
    Mas sempre é tempo! Ah,... o tempo!
    Tenha um lindo dia!
    Beijos!

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Antonio Pereira Apon.

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