Nova Verona. A segunda vida de Romeu e Julieta



O amor é um “país” onde o ideal se faz realidade e a realidade ensina a sonhar. Um lugar onde todo dia é dia dos namorados, dos enamorados pela vida em seu amor virtual. Numa paráfrase moderna ao clássico de Shakespeare.


Antonio Pereira Apon.


EUA. Composição de Antonio Pereira Apon.


Tudo começou em um chat, um bate-papo descompromissado. Tecla daqui, tecla dali e uma empatia foi ganhando corpo e um mutuo enamorar conectou os corações de Romeu e Julieta. Nicknames apaixonados, estabeleciam afetos em banda larga. A lá Vinicius de Moraes. Pactuaram seu “soneto de fidelidade” Num: “Que não seja imortal, posto que é chama. Mas que seja infinito enquanto dure”.


Logo o rapaz mandou construir uma vila para sua amada, a qual, deu o sugestivo nome de Nova Verona. Era um retiro aconchegante e onírico, assemelhado a brinquedo de montar, uma paisagem que resgatava bucólicos vilarejos da Europa medieval. Ela arquitetou surreais jardins, pintou um céu cor de rosa, de onde gotas perfumosas, caiam misturadas a pétalas coloridas; ele imaginou um lindo lago com cisnes, em meio a um bosque outonal. Eis a cenografia daquele romance...


Felizes, degustavam a poesia de cada dia, colhendo as flores daquele doce sentir. Mas um dia a paz foi quebrada, o paradisíaco recanto fora invadido e a moça, sequestrada. O rapaz incorporou seu Dom Quixote para enfrentar monstros e gigantes, libertar sua princesa da torre maldita, das garras do Bowser. Como num game do Mario Bros. Vitorioso, “zerou o jogo” e tornou ao lar com sua amada.


Peixes se beijando.


Sempre que possível, o casal ganhava os céus para ver o sol nascer. De seu balão, contemplavam o astro rei colorir a paisagem, dissipando a neblina com seus dourados acordando a vista. Num passe de mágica, eram transportados: Para dançar tango em Buenos Aires, comer acarajé em Salvador, touradas em Madri, valsas vienenses e como nas mil e uma noites, retornavam em seu tapete mágico.


Balões.


Um casal de filhos veio compor os versos daquele poetar quase sem fim. Ao menino ele deu o nome de Ícaro, a menina ela chamou de Esperança. Mas, vez por outra, um ou outro dos amantes desaparecia por longos dias ou semanas, quebrando o encantamento, a fantasia daquele romance virtual. O vazio acordava sombras, ensombrando o solitário coração, ilhado no “abandono” do seu paraíso ideal.


Na verdade, o destino De Romeu e Julieta. Havia se cruzado anos antes daquele primeiro teclar. Quais MONTÉQUIOS E CAPULETOS modernos, o acaso havia urdido uma trama de antagonismos entre o casal: No dia 11 de setembro de 2001, ambos adolescentes, estavam em New York a passeio. Ela, filha de mãe brasileira e pai árabe, ele de pai americano e mãe brasileira. O moço , se chamava John, a jovem era Aisha. O pai de John, agente da CIA, tornou-se um dos mais ferrenhos e extremados combatentes ao terrorismo. Além do patriotismo, a morte de sua esposa, passageira de um dos aviões arremessados contra o Word Trade Center naquele fatídico dia, alimentava sua sanha de vingança. Estimulado pelo pai, John entrou para as forças armadas americanas, onde ocupa o posto de tenente no serviço de inteligência do exército, tendo atuado algum tempo em Guantánamo. Por outro lado, o pai de Aisha, um próspero empresário saudita, foi preso com sua mulher na esteira das investigações do nefasto atentado. Ela não suportando a pressão dos interrogatórios e a incerteza sobre o futuro do marido, entrou em profunda depressão e suicidou-se. Quando liberto, o maltratado homem exilou-se no Afeganistão com a filha, onde aderiu ao fundamentalismo talibã e associou-se a Al-Qaeda para dar azo a seu ódio ao “imperialismo americano”, “responsável pela morte de sua esposa”.


Assim, quando requisitado pelas obrigações militares, John despia o seu Romeu, abandonando seu refúgio virtual periodicamente. Assim, também Aisha, submetida aos costumes daquela cultura, de burca e tudo mais, via-se constrangida a desnudar momentaneamente sua Julieta, distanciando-se do seu “Éden”.


Apartados pelas contingências da vida real, os revezes das incoerências humanas. Refugiavam-se intra-telas no ciberespaço da sua Nova Verona, onde o impossível é possível e o sonho inventa uma nova realidade, uma nova dimensão, onde o amor é a grande razão: Acima da política e das religiões, além das fronteiras, na “pátria” do coração. O amor é um “país” onde o ideal se faz realidade e a realidade ensina a sonhar. Um lugar onde todo dia é dia dos namorados, dos enamorados pela vida em seu amor virtual. Numa paráfrase moderna ao clássico de Shakespeare.


Vencidos os compulsórios desencontros. Os hiatos eram preenchidos pela transbordante emoção do reencontro, onde seus avatares corporificavam a essência incontida daquele amor virtual, daqueles cativos da realidade, que ali virtualizados, vivificavam seu sentir, transcendendo ao pragmático e sensorial. A imaginação num jogo de contentamento, convencimento da real irrealidade, descortinava um mundo fantástico, a fabulosa capacidade de compor uma nova versão, uma “verdade” alternativa digital às analógicas concretudes. Como pintores impressionistas, românticos literatos, arrebatados poetas, geniais escultores... Resignificavam seus momentos, talvez enfim, dando um definitivo e atemporal sentido a frase do general romano Pompeu, celebrizada por Fernando Pessoa: “Navegar é preciso, viver não é preciso”.


Enquanto John e Aisha, escravos das contingências, suspiram por uma alforria do tempo, uma anistia do destino. Romeu e Julieta em seu Second Life, sua segunda vida. Ousam ser felizes para sempre. Para além de si, para além daqui. Clicares, teclares... Navegar mar a dentro das emoções digitalizadas, reinventadas...


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Comentários

  1. Antonio!
    Que inspiração e criatividade! Reverencio-me! A trilha sonora (lembranças do meu casamento), o roteiro da viagem ao país dos amores, do ontem ao hoje, fez-me não desconcentrar-me da leitura e, ao final, como romântica que sou, suspirar e aplaudi-lo! Obrigada pelo momento lindo!
    Abração da Célia.

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    1. É muito bom quando o texto consegue fazer o leitor viajar no tempo, dentro ou fora de si. É sinal que tocou a mente e o coração acordando boas lembranças, sentimentos...

      Obrigado a você Célia.

      Um abração.

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  2. Que história, a vida é mesmo assim, romanceamos, mas a realidade é nua e crua né meu amigo!
    Amei ouvir o lindo Tema: Romeu e Julieta, amo isso, quando me casei meu vestido foi do modelo de um dos vestidos da Julieta, eu era bem jovem e romântica!
    Abraços!

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    1. O limiar entre a ficção e a realidade pode ser bastante tênue. E como uma imita a outra, romance e realidade podem transitar entre o real e virtual...

      Obrigado Ivone.

      Um abração.

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  3. Parabéns, Antonio, muito criativo e instigante o seu texto.
    É interessante imaginar essa segunda vida do casal apaixonado mais famoso da literatura universal. E a inimizade das famílias faz todo sentido.
    Sem dúvida uma bela homenagem.

    Abraço.

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    1. A alma humana e seus conflitos, ontem e hoje inspiram a arte e suas releituras. O tempo passa mas as gerações reeditam antigos dilemas em novas versões de clássicos imortais.

      Obrigado Paty.

      Um abração.

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  4. Oi, Antonio! Muito criativo um texto inspirado num clássico usando como pano de fundo um cenário tão atual. O tempo passa, a história muda, mas os conflitos são sempre os mesmos. Um abraço!

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    1. Passado e presente, ficção e realidade se confundem na releitura da vida, dos personagens, da história...

      Obrigado Bia.

      Um abração.

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  5. Oi Antonio,

    O amor nos leva para mundos que nosso romantismo produz!
    Adorei o texto!
    Beijos!

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    1. Os sentimentos são passaportes para mundos novos onde ficção e realidade, real e virtual ocupam seu devido espaço.

      Um abração Jossara.

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  6. Olá, querido António!

    Sabe que eu gosto muito de você, daquilo que escreve e do seu sentido de crítica e de humor. Claro que sabe disso, há muito.

    QUE DEUS PERMITA, QUE UM DIA VEJA "A LUZ" DO SOL, OUTRA VEZ. ASSIM SEJA!

    Estou escutando a música que escolheu para fechar seu interessante e inteligente texto, portanto está sendo difícil raciocinar a 100%, porque esse som do piano, sobretudo, não me deixa escrever, com o cérebro todo, e ela continua...

    O amor dos tempos modernos e virtuais, não deixa de ter as mesmas nuances, que os de outrora, porque AMAR é sempre, amar.

    E num grande amor há sempre problemas familiares, sociais, políticos e culturais. Não houve evolução, concluo, tristemente.

    Obrigada pelo seu inteligente e humorístico comentário, em meu blog. Veja só, Antônio, para além do lobo mau, ser "pedófilo", julgamos nós, e me ter roubado o vestido, também me "obrigou" a perder a inocência. Será que pode? Julgo que não. É mesmo lobo mau (risos).

    E a bela música me acompanha. Me apetecia dançar nos braços de um "Romeu", não de um qualquer, mas um "de Caprio", não diria que não, seguramente.

    Tenha um bom domingo e melhor semana.

    Um grande abraço da Luz, que muito o estima.

    PS: sua filhota, vai bem de saúde e nos estudos?

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    Respostas
    1. Um dia Deus há de nos ouvir e acordar do silêncio as cores e formas da minha visão. A música, sobretudo a boa musica, faz a alma viajar na atemporalidade do pensamento que nos furta por momentos o raciocínio. É o “feitiço” da arte. No tempo os sentimentos e conflitos humanos se reeditam, mudam apenas os personagens, os cenários.

      Quanto ao tal do Lobo Mau. Pode não! Ele anda ouvindo muito o “Aí se te pego” do Michel Teiló. Kkkkk... Contrastando com o piano que te faz suspirar por um “de Caprio". Por cá estamos todos bem. Obrigado pela lembrança.

      Um abração e uma maravilhosa semana.

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Antonio Pereira Apon.

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