Crônica de uma noite insegura



...o corpo, penhorando a alma. Aqui ou ali uma sirene... Um estampido sobressalta, a Lua a tudo assiste, vem a poesia calar...


Lua.


O sol se põe.

As sombras se alongam,

espalham-se quais soturnos tentáculos,

vão devorando cada resto de dia.

Acendem-se as pálidas luzes de artificio,

intentando imitar as estrelas,

ocultas, camufladas sob a poluição.

A pressa vai pouco a pouco desertando as ruas,

uma aparente calma trafega nesse vazio.

Notívagos arriscam a noite,

meliantes espreitam o alheio;

um sacizeiro fuma seu destino,

outros cheiram, injetam, bebem em desatino.

Trôpegos bêbados tropeçando no nada,

ébrios loucos em máquinas alucinadas;

vão bebendo toda sorte,

até que o “azar” conspira a morte.

Travestis e prostitutas,

dividindo, disputando a difícil “vida fácil”;

vendendo o corpo, penhorando a alma.

Aqui ou ali uma sirene rasga o silêncio,

alhures um estampido sobressalta,

acolá são ais a assaltar.

Impotente, a Lua a tudo assiste;

segurança inexiste,

insegurança a rondar:

Ronda o casal enamorado,

cinema teatro, bar;

ronda a praia e a boate,

vem a poesia calar.

“entre mortos e feridos”, nem todos se salvaram;

muitos sobreviveram,

alguns, ficaram no caminho.

Alvorecer de outro dia,

recolher, encolher as sombras,

desnudar manchetes a noticiar.


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Foto do autor: Antonio Pereira (Apon).


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Comentários

  1. Uma poesia com densa reflexão da realidade em que vivemos... A noite com lua e estrelas, que emolduravam amores e serenatas apaixonadas, hoje camuflam insegurança, infelizmente...
    [ ] Célia.

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    1. Fora do falacioso discurso político e da ficção da propaganda oficial, a noite retrata a fidedigna face do Brasil: Inseguro, doente e deseducado. Muito além de questões sociais, a violência reflete os desserviços de nossas autoridades cada dia mais incompetentes.

      Um abração.

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  2. Linda poesia, feita de realidade!
    Oh! Pobre Lua! Deve andar um tanto triste, assistindo
    a muitas atrocidades!
    Ainda bem que os poetas resistem!
    Beijos, querido amigo poeta!

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    Respostas
    1. A Lua é esperta. Mantém uma distancia segura de nós, pobres mortais. Senão já teria amargado o dissabor de tanta violência. Triste Brasil.

      Obrigado Jossara.

      Um abração.

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  3. Amigo poeta, tem hora que nem sabemos como encontrar palavras para definir o que estamos vendo, percebendo, passando, vivendo, lembranças de tempos distantes que nem sempre foram melhores.
    Quando leio, vejo, ouço tudo sobre esse tempo de "mudanças' percebo que essa é muito mais lenta do que eu imaginava!
    Não perco a fé na vida, isso jamais, mudar o mundo não dá, mas se se pode mudar a nós mesmos e sendo assim é assim que o faço!
    Abraços meu amigo poeta sensível!

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    1. Resta-nos preservar a paz interior e vibrar positivamente por uma sociedade melhor que resgate os valores da cidadania.

      Obrigado.

      Um abração.

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  4. Olá Antonio

    Caos urbano a roubar do homem a humanidade que ele um dia supôs ser o seu melhor. Cada dia mais as sombras encobrem as claridades.

    O bom de ter voltado à internet é a oportunidade que se ganha de ler poemas como este.

    Abração, Antonio

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    Respostas
    1. Vivemos uma espécie de eclipse da cidadania, onde a sociedade vê confiscados valores fundamentais como segurança, educação e saúde. As trevas do descaso, da omissão e da incompetência nos ensombram e assombram na escuridão de tanta e descabida violência.

      Obrigado por seu gentil comentário.

      Um abração.

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  5. Meu querido amigo

    Um poema muito real, infelizmente em lado nenhum encontramos segurança.

    Um beijinho com carinho
    Sonhadora

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    Respostas
    1. Realidade insegura, gestada no voto errado, no estelionato eleitoral que vende ao eleitor o banditismo politiqueiro. Mas um dia o sol brilha e dissipa tantas sombras.

      Um abração.

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Antonio Pereira Apon.

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