Para aprender a mentir
Uma análise satírica sobre a necessidade de mentir no trabalho, a persuasão política e os limites da verdade na sociedade moderna.
Uma reflexão ácida e provocativa sobre a mercantilização da verdade e os limites da persuasão na sociedade contemporânea. Através de um diálogo satírico entre um paciente e seu analista, o texto analisa a pressão pelo desempenho, a linguagem do telemarketing e o impacto da propaganda política na formação de opiniões. Descubra como a ironia revela verdades incômodas sobre o nosso cotidiano.
O cidadão no analista:
— Doutor, eu preciso estar aprendendo a mentir.
— Como assim?
— É que eu arrumei um emprego de operador de telemarketing para estar vendendo um monte de bugigangas inúteis. Passei em todos os testes, mas na avaliação da capacidade de “enrolar” as vítimas (clientes), me dei mal. Deram-me uma semana para aprender a ser mais convincente, mentir sobre as qualidades das porcarias que vou estar vendendo. Vender fumaça com naturalidade.
— Mas isso é muito fácil de resolver. Você assiste ao horário político?
— Que nada, doutor! Tenho mais o que fazer.
— Mas vou receitar que você assista à propaganda política da extrema direita duas vezes ao dia, durante três dias...
— Três dias?
— É o bastante para transformá-lo num mentiroso funcional. Mais do que isso pode torná-lo um mitômano crônico, ou até mesmo um negacionista aloprado. Aí não tem analista que dê jeito! Use o remédio com moderação, não abuse. E, pelo amor de Deus (o de verdade), não me venha querer vender nada, sou vacinado!
— E tem algum efeito colateral, doutor?
— Só um: você corre o risco de começar a postar fake news no grupo da família às seis da manhã e virar o Tiozão sem noção do WhatsApp.
A sátira postada aqui em 4 de setembro de 2008 e atualizada em 06 de outubro de 2026 aborda a banalização da mentira e a desumanização das relações no mundo moderno, traçando um paralelo direto entre a persuasão agressiva do mercado (exemplificada pelo telemarketing) e a manipulação da propaganda política radical.
O texto contrapõe o "consultório do analista" — espaço tradicional da busca pela verdade e pela saúde mental — com a demanda do cidadão, que busca a "patologia voluntária" (aprender a mentir) para sobreviver na irrealidade. A propaganda política surge como uma "farmacologia do absurdo", uma dose de desinformação prescrita para condicionar a mente.
Utiliza o humor ácido e a ironia para mascarar um sentimento profundo de desilusão social. O gerundismo deliberado atua como símbolo do automatismo e da perda de autenticidade na vida contemporânea.
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Olá, amigo. Adorei a Crônica! Vc é demais Apon. Que vc tenha um bom domingo! Beijos carinhosos e obrigada pela partilha.
ResponderExcluirObrigado a você. Bom domingo para ti também.
ExcluirOlá Antonio querido,
ResponderExcluirGostei muito de sua postagem!
O aprendizado da mentira, do embuste e da politicagem tem o mesmo significado. Em nossos tempos, mais ainda. Cada vez mais, somos enganados por palavras bonitas e caras-de-pau que não sentem vergonha de falarem e prometerem absurdos, quando sabemos que é tudo para tentarem burlar o povo.
Que estejamos atentos e que façamos nossa memória funcionar, no momento de votarmos em alguém que poderá representar-nos no futuro.
Grande beijo, amigo.
Maria Paraguassu.
A política brasileira sempre foi (e continua sendo) uma grande farsa. Até quando? ...
ExcluirUm abração e uma boa semana.
Gostei demais!Bem propício ao momento.
ResponderExcluirBeijos e boa semana,
Jú
O pior é que junta a vontade de enganar dos políticos, com a acomodação dos eleitores que gostam da enganação e dá no que está aí.
ExcluirBoa semana para ti também.
Excelente sua crônica...infelizmente vemos um mundo de mentiras sendo desfilando em nossas caras...
ResponderExcluirBoa semana amigo, beijos,
Valéria
A mentira tornou-se a grande "verdade" da política.
ExcluirUma boa semana para ti também.
Oi Antônio,
ResponderExcluirEsse texto foi postado em 2008, mas mantém atualidade, isso é nada mudou desde essa data, acho que até se agravou.
Humortística sua postagem, mas com um montão de verdades, sob ela.
Boa semana.
Abraços da luz.
PS: então gostou do meu poema, pois é...luz apagada, braço estendido e mais não digo.
O tempo passa. Os costumes... Quanto a sua poesia. Demais mesmo.
ExcluirUm abração e bom fim de semana.
Oi, Antonio!
ResponderExcluirÉ como diz o velho ditado " Passa anos, troca as moscas e a "m"
continua a mesma"!
Seu texto diz tudo!
E nós só reclamamos e nada fazemos! As vezes tenho a sensação que estamos todos hipnotizados! Será?!
Beijos!
Creio que a acomodação é maior que qualquer coisa nesse país. O povo foi "adestrado" para perpetuar isso que está aí. Esquerda, centro, direita. Lama do mesmo charco.
ExcluirUm abração e bom fim de semana.