Hoje é dia de...

Manifesto de um texto engavetado

O manifesto poético de um texto esquecido na gaveta que ganha vida e liberdade ao ser finalmente lido na era digital.

Descubra o sensível reclame de um texto esquecido numa velha gaveta, escrito originalmente em máquina de escrever. Esta crônica poética e reflexiva aborda a passagem do tempo, a transição para o meio digital e o desejo fundamental de qualquer criação artística: o ato libertador de ser lido e interpretado.

Fotografia em estilo surrealista e cinematográfico. No centro da imagem, uma gaveta de madeira antiga está levemente entreaberta num ambiente de penumbra. De dentro da gaveta, sai uma folha de papel amarelada e envelhecida, flutuando suavemente para cima. Uma luz dourada e brilhante emana diretamente do papel, projetando partículas reluzentes de poeira no ar ao redor. No fundo escuro, veem-se em penumbra pequenos objetos vintage sobre a mesa, como clipes e grampos. O contraste entre a sombra densa da gaveta e o brilho intenso da folha cria um clima de mistério e libertação. #PraCegoVer #ParaTodosVerem
A palavra guardada ganha luz no exato instante em que o leitor a descobre. – Imagem gerada e descrita por inteligência artificial.

Eu sou um texto! Eu existo! Não sou um ninguém! Sou alguém! Um sujeito de direito! Não um objeto qualquer, para conformar-se em viver trancafiado no fundo de uma gaveta. O sentido do meu existir é o de ser lido! No entanto, fico aqui: inédito, esquecido, desprezado, discriminado, cativo, trancafiado, enclausurado; sinto-me natimorto, abortado, rejeitado...

Outros textos passaram por essa velha gaveta; com ar emproado, gabavam-se de terem sido escritos num tal de computador, que no meu tempo nem existia. Eu nasci numa máquina de escrever, que dizem nem mais existir. Passaram por aqui também uns textos gente boa que, mesmo vindos do tal computador, não eram metidos a besta. Esses me contaram de uma tal internet, onde os textos viajam o mundo inteiro, vão e vêm sem limitações, são lidos em todo o planeta...

E eu aqui, exilado numa gaveta com duas bolinhas de naftalina, algumas contas velhas, uns grampos, alguns clipes e outros cacarecos. Vez por outra é que aparece um textinho menos desafortunado para me dar essas notícias das modernidades e das coisas: o Muro de Berlim caiu, a Guerra Fria acabou, acabou a ditadura, só não acaba a minha prisão! Será que nunca vai surgir uma "Associação dos Textos Desvalidos"?

Acho que por conta disso tudo, esta noite sonhei um troço esquisito: meu autor finalmente tinha tomado vergonha e me tirado da gaveta; ele me colocava numa máquina estranha, com uma luzinha que me fazia cócegas (dizia ele que estava me digitalizando). De repente, me senti fora do meu papel amarelado e dentro de uma coisa parecendo uma TV. Depois, me senti sendo lido em vários lugares ao mesmo tempo; era uma sensação gostosa, de vida e liberdade, que só lembro ter sentido quando fui escrito.

Ser lido inundava o meu ser de uma plenitude insólita, sentia-me importante, útil. O sonho parecia não ter fim, parecia eternizar o prazer de um pobre texto, por tanto tempo perdido nas masmorras do esquecimento... Tudo ia bem, até que você me acessou...

Você??? Acessou???

Como???

Este texto, Postado aqui em 18 de agosto de 2007, apresenta uma narrativa personificada onde a própria obra assume a voz e a consciência de sua existência. Escrito na perspectiva de uma folha datilografada, o texto clama por sua função vital: ser lido.
Mensagem Central: A arte e a palavra escrita só alcançam a plenitude e cumprem seu propósito existencial através do olhar e da interpretação do leitor. O ato de ler é a ponte de libertação da obra.
Aspectos Emocionais: Transita entre o isolamento angustiante da rejeição e a euforia libertadora da redescoberta digital. Há melancolia no esquecimento e encanto no encontro com quem lê.
Aspectos Filosóficos e Simbólicos: Aborda a transitoriedade do tempo — o contraste entre o analógico (máquina de escrever) e o digital (a luz do scanner e as redes) — e questiona a condição da criação artística quando privada de público.
Aspectos Narrativos: Utiliza a metalinguagem e a personificação com tom de crônica poética, quebrando a quarta parede ao dialogar diretamente com o leitor no clímax da narrativa.

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Comentários

  1. Muito bem imaginado, muito bem elaborado, meu amigo és uma caixinha de surpresas!
    Parabéns

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  2. Nossa, que coisa legal, de uma criatividade e autenticidade perfeitas, muito bom ler!
    Amigo, agradeço pelo seu carinho e te desejo um ótimo fim de semana, beijos

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  3. O túnel do tempo o levou ao baú imaginário e de lá resgatou com sua vertente poética, tão belo colóquio entre o ontem e o hoje! Belo! Parabéns! Abraço, Célia.

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  4. Muito bom, Antonio, bastante criativo. Provavelmente é assim que os textos publicados nos blogs e não lidos devem se sentir.

    Um abraço

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  5. Oi meu amigo, vim agradecer suas palavras de carinho, sempre ficamos tristes ao nos separar das pessoas que amamos, mas a vida continua para nós e sei que devemos vivê-la o mais plenamente possivel.
    Obrigado e otimo findi semana.

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  6. Olá, António
    Mas que texto tão criativo!
    Atrevo-me mesmo a dizer que há muito tempo não lia nada tão invulgar, bem construido, tão cheio de imaginação.
    Adorei! Parabéns.

    Bom fim de semana. Beijinhos

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  7. Antonio Querido!

    Adoreiiiiiiii!
    Fantástica sua criatividade!
    Tenha um maravilhoso fim de semana!
    Beijos!

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  8. Lindo Dia Antonio*Ser um texto,que por Excelência mesmo tendo apenas uma linha,uma simples mensagem,já este texto não está sozinho,ele tem a missão de trazer e entregar a mensagem tão esperada pelos leitores.Um texto não pode ficar engavetado,tem que mostrar a cara,e ser como eu,um poema Irreverente,que não me acanho em espalhar pelo Universo os meus versos de Amor*Portanto amigo texto,nunca mais se esconda dentro da gaveta,pois eu amo você,meu amigo do Mundo das Letras.*Parabéns Antonio,pela genialidade desta matéria.Adorei.Bjus\Flor*Jardim do Amor*

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  9. Olá Antonio querido,
    Por vezes, me dá uma vontade de vir aqui e não mais sair. Leio-o e me deleito com seus textos. Sinto-me tão pequena diante dessa literatura arrojada e bela em que transitas.
    Este texto é maravilhoso! Que inspiração, querido escritor!
    Lindo e fascinante mundo a do texto que, no decorrer do tempo, ficou preso e quase esquecido, na gaveta.
    Ainda bem que o trouxeste de volta à vida. E, em seu retorno, surpreendeu-se com as mudanças que o progresso trouxe.
    Um ótimo domingo para você, amigo.
    Um super abraço e um beijo,
    Maria Paraguassu.

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  10. Olá estimado António,

    Adoro a palavra gaveta.
    Lá, tudo podemos guardar, o amar e o desejar e textos lindos de encantar.
    No dia 02 de Fevereiro, você pregou uuma partidinha àquele seu texto, tão acomodado e tão resguardado.
    Se calhar, ele até gostou de se tornar público, se mostrar.
    Tire mais de sua gaveta, bons, como este.
    Grata pelos comentários.

    Bom Domingo.
    Abraço de luz.

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  11. hahaha me sinto salvando o pobre textinho.

    Que coisa mais linda este seu texto, criativo.

    Um texto só existe totalmente a partira das leituras que são feitas dele, é um continuar de criação que cada leitura e interpretação propõe. Textos não são para gavetas, porque possuem vida, a vida que cada olhar dá a eles.

    Beijos, Antonio querido

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  12. Olá Antonio!

    Eu fiquei pensando nos meus "otrocentos" rascunhos, sendo que alguns já tem mais de ano.... tomara que eu nao comece a sonhar com eles e virem pesadelos: batendo na porta da minha mente e pedindo para sair!

    kkkkk

    BEIJOS

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  13. What a poignant reflection on the plight of forgotten texts! Your narrative captures the essence of feeling lost and overlooked, juxtaposed with the hope of being rediscovered and appreciated in the digital age.

    I just posted a new blog post at www.melodyjacob.com. I invite you to read it and let me know what you think about it. Thank you!

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    Respostas
    1. Tal como as pessoas, que não nasceram para a prisão e o exílio. Os textos precisam da liberdade para encontrarem sentido no existir. Libertemos nossos escritos.

      Um abraço. Tudo de bom.
      APON NA ARTE DA VIDA 💗 Textos para sentir e pensar & Nossos Vídeos no Youtube.

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  14. Uma inspiração fantástica! Amei a liberdade que o texto sentiu ao ser lido em todos os lugares!
    Beijos

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