O sonho. Desejo de um doador - A arte da vida. Apon HP



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quinta-feira, 12 de setembro de 2013

 

                    O sonho. Desejo de um doador              

     

... quero doar os órgãos que já não me servem, como doei aquele monte de brinquedos com os quais eu não mais brincava, mais que fizeram a alegria das crianças do orfanato; e as roupas “ainda boas” que já não davam em mim, os sapatos que eu “perdia tão rápido”...

Antonio Pereira Apon.


Mãos com uma flor.

Euclides, um motoboy, como de costume, estava com extrema pressa para fazer suas entregas. Vinha já em considerável velocidade, quando percebeu o semáforo entrar no amarelo. Acelerou tudo o que pôde, calculando que conseguiria ultrapassar o ônibus que ia a sua frente e fazer a curva antes do sinal ficar vermelho. Errara por poucos centímetros... Atingido pelo coletivo, rodopiou na pista com sua moto e foi violentamente arremessado ao solo. Seu capacete “ching ling paraguaio”, não resistindo ao forte impacto com o asfalto, espatifou-se...


10 minutos se passaram para que as motolâncias do SAMU conseguissem vencer o crônico congestionamento de Salvador. Os dedicados socorristas conseguiram reverter o quadro de parada cardiorrespiratória que encontraram. Mais uma ressuscitação foi necessária durante os 20 longos minutos gastos pela ambulância para se desvencilhar de mais uma das endêmicas, abusivas e irracionais manifestações que tanto tumultuam o já caótico trânsito da cidade.


Em estado gravíssimo, aquele rapaz de 23 anos deu entrada no hospital 45 minutos após o acidente. Dois dias de coma já consumiam a pouca esperança dos seus familiares, que já cogitavam a possiblidade de doar ou não os órgãos do moço. Sua mãe, Dona Sara era radical e irredutivelmente contra. Mesmo uma vez o filho tendo revelado a intenção de ser doador.


Quatro dias passados e naquela noite, a angustiada senhora, sentada no corredor que levava a UTI, sentiu-se tomada por uma espécie de torpor, dominada por um sono irresistível. Euclides lhe apareceu sorridente e num afetuoso abraço:


- Mãe, eu vim me despedir e te fazer um pedido.


- Se despedir? Não! Não me deixe meu filho!


- Eu preciso ir. Meu tempo por aqui acabou. Vim te mostrar como estou bem. Meu corpo está lá dentro machucado e já não me serve. Eu espírito, estou aqui intacto a lhe falar. Quero pedir que autorize a doação dos meus órgãos.


- Não! Não me peça isso! Se você morrer, vai ser enterrado com todos os seus órgãos. Como você nasceu!


- Para que minha mãe?! Para apodrecerem e alimentarem os vermes? A senhora me ensinou que Jesus doou-se para salvar a humanidade. Não posso salvar a humanidade! Mas, posso fazer a diferença na vida de algumas pessoas. A senhora sempre me ensinou a ter desprendimento; quero doar os órgãos que já não me servem, como doei aquele monte de brinquedos com os quais eu não mais brincava, mais que fizeram a alegria das crianças do orfanato; e as roupas “ainda boas” que já não davam em mim, os sapatos que eu “perdia tão rápido”...


Conduzindo a chorosa genitora pela mão, Euclides levou-a para conhecer alguns pacientes ali internados:


- Aquela mulher vai precisar de um transplante de córnea para voltar a ver, aquele senhor está na fila de espera por um rim... E se eu fosse um deles? A senhora não gostaria que alguém me doasse a oportunidade de seguir vivendo?


Dona Sara entendeu e atendeu ao pedido do filho naquele encontro. Dias depois, sentada num banco de praça, ela refletia sobre tudo o que tinha acontecido. Foi quando um pedaço de papel trazido pelo vento caiu em seu colo. Eram os versículos 13 e 14 do capítulo 15 do livro de João:


“O meu mandamento é este: Que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei.

Ninguém tem maior amor do que este, de dar alguém a sua vida pelos seus amigos”.




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3 comentários:

  1. Sou doadora em potencial. Espero que seja respeitado o documento que tenho registrado.
    Um conto com uma filosofia de desprendimento de vida louvável.
    Abraço,
    Célia.

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  2. Bom dia, querido António!

    Tudo bem com você?

    Acho lindo, melhor dizendo, natural e fraterno esse gesto de doar nossos órgãos, quando em boas condições, a alguém que precise deles para viver.

    A história, não sei se real ou não, que você postou, nos faz pensar. Ame seu próximo, como a você mesmo.

    Olha, querido António, se Deus me ajudar e o tempo de que disponho, me ajudar, teremos poesia, esse fim de semana, SIM.

    Maravilhoso fim semana.

    Um abração da Luz.

    PS: gosto muitoooooo de você. O admiro, o aprecio como ser humano.

    ResponderExcluir
  3. Acho a doação um gesto belíssimo, de solidadriedade. Belo conto...um abraço!

    ResponderExcluir

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