O Príncipe, a verdade e os espelhos - A arte da vida. Apon HP



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terça-feira, 17 de dezembro de 2013

 

                    O Príncipe, a verdade e os espelhos              

     

... feitiço só se quebraria se Sua Alteza enxergasse a pura e cristalina verdade, capaz de libertar a todos do julgo da intolerante ignorância...


Antonio Pereira Apon.


Ponte


“...conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”.

Jesus - João 8:32.


Após grande hesitação, aquele Rei permitiu que o Tribunal do Santo Ofício, se instalasse em seu país. Presente na execução de uma jovem, sumariamente condenada pelos inquisidores por crime de feitiçaria. Na verdade, a desafortunada criatura, até ali não fizera nenhum mal, usara seus genuínos dons mediúnicos para o bem. Mas, dotada de uma exuberante beleza, Veritas cometeu o “pecado” de não ceder aos caprichos de um dissoluto Bispo. Injustiçada, desesperada ante a tocha flamejante na mão do Carrasco e o olhar cúmplice e permissivo de Sua Majestade. Antes de arder na ignominiosa fogueira. A desafortunada mulher lançou uma maldição sobre o Soberano: Seu filho, o pequeno príncipe cresceria sem conseguir ver a própria face espelhada. Se sentiria o ser mais horrendo sobre a superfície da Terra. Tal feitiço só se quebraria se Sua Alteza enxergasse a pura e cristalina verdade, capaz de libertar a todos do julgo da intolerante ignorância. Caso contrário. O reino seria consumido por suas próprias sombras.


Assim, espelhos se quebravam e qualquer superfície polida se turvava ao simples olhar do belíssimo rapaz. Os mais renomados artistas foram contratados para pintar e esculpir a real beleza principesca, exaltada por todos. Porém, o infante que não conseguia se ver, torturava-se, não se convencia de sua tão decantada formosura. A despeito das constatações de toda a corte, ele se percebia qual monstruoso Zumbi, errante abominação da natureza.


No auge do desespero, ensombrado por uma profunda depressão, o infeliz decidiu pôr termo à vida naquele bucólico fim de tarde. Atou uma pedra ao pescoço e do ponto mais alto de uma ponte, estava pronto para atirar-se nas águas profundas da morte. Nesse instante, dois olhos tristes, refletidos na placidez do lago, revelaram ao moço toda sua beleza, quebrando enfim a dolorosa magia.


O Rei abdicou em favor do filho. O novo Monarca tornou o país laico, passou a combater toda forma de preconceito, intolerância, injustiça e censura. Homenageando a mocinha assassinada pela sanha inquisitória, deu ao lago que quase lhe servira de túmulo, o nome de Espelho de Veritas (Espelho da verdade).


Pois é. Não basta saber da verdade, ouvir falar dela, teoriza-la... É preciso conhecê-la e vivencia-la.


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11 comentários:

  1. Antonio, amigo poeta, lindíssimo texto, sim, a verdade é absoluta, não há meias verdades ou verdades relativa como muitos querem nos fazer entender, portanto é preciso vivenciá-la, encarar a verdade é mesmo um grande desafio!
    Abraços amigo querido, tenhas lindos dias e feliz Natal com sua família!

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    1. Fora da verdade não há salvação. O resto, são resquícios de ilusão.

      Obrigado. um natalino abração.

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  2. Um exemplo vale mais que mil palavras! Excelente reflexão para os dias de hoje em que é mais fácil teorizar que praticar! Parabéns, Antonio!
    Abraços natalinos.
    Célia.

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    Respostas
    1. A verdade é o caminho reto. O mais, é andar em círculos para lugar algum.

      Obrigado. um natalino abração.

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  3. Olá, Apon! Ler o texto me fez pensar em quantas pessoas são assim, não conseguem enxergar a si mesmo, seja em aparência, seja interiormente, e sofrem em cima do que imaginam, nãos do que corresponde a verdade.
    Desejo a você um Natal maravilhoso, com saúde, paz, alegria e sentimento de união.
    Um abraço!

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    1. Buscar se conhecer, é alforriar o espírito, resgatando a "verdadeira verdade" que deve iluminar o ser.

      Obrigado. um natalino abração.

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  4. Olá, António!

    Estive lendo a história que aqui nos relatou, com olhos de menina de quatro ou cinco anos.
    Estive, sempre, muito atenta, encantada, pois desejava saber o que iria acontecer ao pequeno príncipe.
    Não sei se é ou não lenda, mas, o que eu sei é que nos faz pensar e nos dá uma lição de moral.

    Só conseguimos perceber e aceitar determinadas situações, quando elas passam nas nossas vidas, ou melhor, em nós.

    Agora, vou imaginar: um dia, o príncipe, que agora já era rei, se reencontrou com uma bela moça, por quem ficou, imediatamente apaixonado, desconhecendo ele, que ela era a tal menina, que tinha sido condenada à fogueira, acusada de feitiçaria.
    Se enamoraram, de imediato, um pelo outro. Casaram, tiveram filhos/as lindos/as e foram felizes para sempre.

    Excelente dia, com amor.

    Aquele abraço.

    PS: não há novidades, em meus blogues.

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    Respostas
    1. Numa possível sequência dessa minha lenda, misto de "capa e espada" medieval, com mitologia greco-romana e uma pitada de crítica político-religiosa. A moça reencarna como a Princesa Sophia, filha do nosso Príncipe/Rei, sucedendo seu pai num reinado de justiça e sabedoria. Já na condição de Rainha, através da reencarnação, ela trará ao mundo como filhos; aquele que fora seu avô e o tal Bispo que a mandou para a fogueira. Numa combinação de perdão, resgate e amor, todos os desvios e desatinos serão corrigidos e todos viverão felizes para sempre.

      Obrigado, um abração.

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  5. António, eu de novo!

    Amei a imagem, que encima seu texto. Me parece um pôr do sol. Será que é?
    Se pensarmos na história que aqui nos contou, acho que pode ser também nascer do sol, porque o rei renasceu das cinzas, digamos assim.

    Abraço, com estima.

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    Respostas
    1. Originalmente é um alvorecer, mas aqui, cabe também como crepúsculo. É a ambivalente magia da literatura, inspirando o olhar de cada leitor.

      Um abração já natalino.

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    2. Sim, António, também vi a história com dupla face.
      Quando a narrativa é aberta, a imaginação do leitor é que ganha, e o autor, também, logicamente.

      Voltarei, se Deus quiser, antes do natal, e depois lhe "dou" um abraço e um beijo, igual a todos os que lhe dei durante os 364 dias do ano, nem mais, nem menos.

      Até breve.

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Antonio Pereira Apon.

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