Tirando o pé da senzala - O pé que dá pé


Pé na senzala, jamais! Pé na ancestralidade, na africanidade, na afrodescendência… Vamos tirar esse pezinho da senzala?!


Homem negro com as mãos no bolso, olhando para o sol. #PraCegoVer

Sem querer e na maior das boas intenções, por vezes proferimos absurdidades sem nem nos darmos conta, assim vamos ratificando o antigo ditado: “De boas intenções, o inferno está cheio”. É o que acontece, quando diante de alguém não declaradamente pardo ou negro, que manifesta algo que remeta à cultura africana, sapecamos o velho e impensado: “Fulano tem um pé na senzala”. Seria aceitável, diante de uma manifestação da cultura judaica, alguém disparar: “Sicrano tem um pé no campo de concentração”? Pois é, um e outro representam o espaço-tempo da infâmia, da dor e todo tipo de desgraça impingidas a esses povos.


A senzala jamais deveria ser utilizada como referência identitária das manifestações de raiz africana, elas foram e são o equivalente tupiniquim de Auschwitz, Sobibor, Treblinka… E quando digo que são, é porque os “clássicos” depósitos de escravizados ressurgem nas favelas, senzalas modernas, onde, à feição dos velhos Capitães do Mato, insepultos capatazes, a polícia adentra com poder de vida e morte, criminalizando toda uma comunidade apartada da “casa grande”.


Portanto, pé na senzala, jamais! Pé na ancestralidade, na africanidade, na afrodescendência… Já passou da hora. Vamos tirar esse pezinho da senzala?!


O pé que dá pé


Nada de pé na cozinha,
nem na senzala o pezinho,
o pé livre caminha,
faz o pé do preto o caminho.
Sem dono nem adonado,
sem ser tutelado,
o pé do negro caminha.
Na cultura a guarida,
o levantar a poeira,
na lida da vida,
pra desdita, rasteira.
Pé na fé,
de pé em pé,
de pé;
aqui, ali,
num lugar qualquer;
aonde quiser:
Na planície e no planalto,
na favela, no asfalto,
num mergulho ou num salto;
pé liberto,
pé esperto,
inquieto pé que faz acontecer.
Diaspórico pé,
ressignificado,
desacorrentado,
desamarrado,
empoderado pé,
a dar pé.


Antonio Pereira Apon

Autor do poema: A pedra. O distraído nela tropeçou... Procurando escrever em prosa e verso com a arte da vida.

2 Comentários

Obrigado por sua visita. Agora que terminou a leitura, que tal deixar seu comentário na caixa de comentários abaixo? Sua interação é muito importante. Obrigado.

  1. Boa tarde de paz, amigo Antônio!
    Vamos sim, comigo pode contar para tirar o pezinho da senzala.
    Nossa ancestralidade nos revela.
    O mundo ao nosso redor não passa de uma "casa grande".
    Tenha uma nova semana abençoada!
    Abraços fraternos

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Cada um traça os caminhos pros seus pés pisarem. Liberdade é poder escolher por onde ir, sem ter os pés tutelados por senhor ninguém.

      Um abraço. Tudo de bom.
      APON NA ARTE DA VIDA 💗 Textos para sentir e pensar & Nossos Vídeos no Youtube.

      Excluir
Postagem Anterior Próxima Postagem

Pular para comentários.


Clique na imagem acima para ler uma postagem sorteada especialmente para você.


Clique para ler: A pedra.            Poema de Antonio Pereira Apon.

Clique na imagem do escultor para ler: A pedra. Nosso poema que tem sido plagiado.




Fale conosco.


No Youtube, se ainda não se inscreveu, inscreva-se em nosso canal Apon na arte do viver., clique no sininho para escolher receber nossas notificações, ser avisado(a) dos vídeos novos. E não esqueça de dar seus likes. Conto com você! Obrigado.


Esse e muitos outros vídeos, você também encontra em nosso canal no Dailymotion.