A força do mar sempre foi fonte de inspiração para poetas, músicos e devotos. No post de hoje, compartilho com vocês o vídeo "Rainhas do Mar de Iemanjá", uma obra que a partir do meu poema, une tecnologia e espiritualidade para reverenciar a Rainha das águas. A música, composta com o auxílio da inteligência artificial Suno, traz uma sonoridade que evoca o balanço das marés e a profundidade dos oceanos. Para acompanhar a melodia, as imagens selecionadas buscam traduzir a estética divina de Iemanjá: sua elegância, seu olhar acolhedor e a força indomável da natureza.
Que me perdoem os deuses de barba e tridente,
quando penso as águas, um senhor irado, não me vem à mente,
vem um ventre antigo;
para mim,
o mar, sempre teve rosto de mulher;
Talvez o feminino tenha invadido o divino —
ou ter sempre estado lá.
Antes dos mitos organizarem o mundo ao bel-prazer de ritos, raios e espadas,
Quando imagino a força das águas, surgem elas:
Iemanjá, Iara, Afrodite, sereias de todo canto,
habitando o mesmo encanto onde moram, se demoram os sonhos.
Padrões que nos atravessam sem pedir licença;
para Jung seriam arquétipos,
para mim, alheias lembranças,
memórias legadas,
ondas antigas quebrando dentro da gente.
Fazem as rainhas do mar se parecerem,
serem encontro entre desencontradas culturas.
Água reconhecendo água,
todas embarcadas no mesmo paradoxo:
acolhem e afogam,
geram vida e cobram apreço.
São ventre e correnteza,
doçura e risco.
Arrisco do feminino contrariado.
Quem ouviu o canto da sereia,
provou mito em si,
aquela voz que atrai sem um quê de salvação.
os gregos sabiam:
escutar demais é perder o rumo.
Odisseu precisou se amarrar ao mastro
para ouvir sem morrer,
sem perder o prumo.
Nem todo desejo é dado ao mergulho.
Nascida Afrodite do mar em espuma,
amor surgido de um gesto brutal.
Talvez por isso proteja os navegantes:
quem enfrenta o mar,
sempre confronta algo maior;
ela entende de revezes e travessias,
de naufrágios íntimos,
da íntima beleza que fere.
Na Amazônia, Iara faz-se canto diferente.
Sua voz não vem do sal,
vem do doce rio.
É noite fluida,
é lua refletida nos olhos.
Quem a segue, mergulha.
Quem retorna, vislumbra-se outro,
absorto desinteiro.
Toda água profunda aprofunda,
infunda Iemanjá.
Não o mito distante,
mas a presença constante.
Mãe cujos filhos são como peixes,
mãe do mundo,
mãe ferida gerando universos,
multiversos.
Vinda da África como rio,
fez-se mar no Brasil,
refez-se em muitos nomes
sem perder o seu.
Virgem, sereia ou orixá,
tantas senhoras...
Nossa Senhora dos Navegantes e Rainha do Mar numa só simbologia.
Sincretismo é diversidade, é poesia:
é sobrevivente melodia.
Dizem que ela perdeu o domínio do mundo,
restou-lhe a superfície do mar.
Eu diria que perdurou-lhe a essência:
o mover dos destinos,
o limite entre partir e voltar.
Todo dois de fevereiro,
dia de conversar com o mar,
entregar flores, pedidos, silêncios.
oferendas a lançar;
esperançar que as águas devolvam,
com carinho,
um caminho pra se trilhar..









