Esperar não, esperançar; o vento que pode mudar seu deserto
Você está apenas esperando o tempo passar ou está aprendendo a "esperançar"? Neste post, mergulhamos em uma reflexão profunda sobre a diferença entre a inércia da espera e a força ativa da esperança. Muitas vezes enxergamos nossos momentos de dificuldade como desertos definitivos, mas a esperança é o vento obstinado que redesenha a paisagem e transforma a areia em caminho. Inspirado por conceitos da psicologia positiva, da mitologia e da filosofia, este texto nos convida a entender a esperança não como uma espera passiva, mas como uma "estratégia existencial". Esperançar é um verbo de ação: é o plantio sob o sol inclemente, é a tensão do arco antes do disparo, é a resistência simbólica contra o vazio.
Esperar é um delongar silencioso, bem compreendido e sobretudo, bem vivido, Não implica numa inércia pétrea, mas afigura-se qual a tensão do arco antes do disparar da flecha. Não cabe confundir espera com: paralisia, inação; contudo, a espera genuína é um ato invisível, preparatório da ação.
Espera deriva do latim sperare: confiar, ter fé, contar com o que ainda não chegou, acreditar... Aí já pulsa a esperança, essa força luminosa que não se satisfaz com o agora. Transmuta-se em verbo fazendo-se ação: esperançar. É quando a palavra deixa de ser substantiva e se torna caminho, estrada, desiderato... Esperançar é verbo de quem semeia mesmo sem ver a colheita; precioso gerúndio da coragem.
A esperança é vento que sopra na vastidão árida do deserto fingindo-se definitivo. mas o vento obstinado, redesenha a paisagem. Nada permanece como antes depois do sopro persistente. Assim é a esperança: não desmente o deserto, mas o transforma; mostra que o cenário pode mudar mesmo quando a areia parece eterna. Psicologicamente, ela funciona como bússola interior a nortear o sentido. A criatura, sobrevivente do abismo existencial em que se insulou, descobrindo um objetivo, traça rumo, mapeia a própria libertação do vazio infértil. A esperança é esse quê sussurrado contra o nada.
É aquela voz que se ergue no ermo. Quando tudo é silêncio, a esperança; poética, declama o primeiro verso. No mito grego, foi ela que restou no fundo da caixa de Pandora. Não como uma cruel ironia, mas como derradeiro restar de humanidade. Quando os males escapam, fica a capacidade de imaginar outro dia. Não é fuga; é resistência simbólica, resiliência. O vazio emudece, mas a voz que levanta destemida faz-se eco transformador.
A esperança é paciente artista, escultora que, com mãos perseverantes, talha o tempo bruto. Cada fracasso momentâneo é um golpe de cinzel; cada adiamento, uma lasca que cai. Assim, o tempo, antes monólito opaco, revela-se em ressignificadas formas. A psicologia positiva descreve a esperança como combinação de metas, caminhos e ação; querer, planejar, agir. Não é fantasia, fuga ou devaneio; é arquitetura interior.
Conta uma antiga parábola: dois agricultores observam o mesmo campo seco. Um guarda as sementes para não perdê-las; o outro planta, mesmo sob o sol inclemente. Se a chuva vier, apenas um terá colheita. Se não vier, ambos terão perdido algo, mas apenas um terá vivido na plenitude do gesto. Assim sendo: Esperançar é plantar.
Simbólica, a esperança aurora. Não sendo o sol pleno, delineia o contorno tênue, anunciador de que a noite não é soberana. Esperança é dourado fio alinhavando a bainha escura do horizonte. Luz nascente, bordar da renovação, do renascimento, promessa do esperançar. Mergulhando nas tradições: Ísis reunindo os pedaços de Osíris, a fênix que se ergue das cinzas, a semente que rompe a terra. A mesma força arquetípica: a confiança na superação, super ação do fazer acontecer.
Portanto, esperar não é cruzar os braços. É sustentar o olhar na amplidão sonhada, enquanto os pés caminham na mais concreta realidade. É a tensão proativa no arco do que mira o alvo. Quem espera com esperança, age; quem apenas aguarda, contabiliza horas. Um transforma o tempo em aliado; o outro, o percebe como inimigo.
Desertos exteriores, desertos íntimos. Nos íntimos, o vento é pensamento novo. Uma leitura, uma conversa, uma memória que reacende sentido. O sopro não vem de fora: nasce da decisão de não sucumbir à movediça imobilidade da areia.
Aqui, não se trata de ingenuidade. Esperança é estratégia existencial, acordar a compreensão de que a vida é processo e o viver não é uma sentença determinista e inapelável. O tempo é matéria moldável que guarda a plasticidade dos destinos. O vazio não precisa ser um ensimesmado fim, pode ser ventre, útero de todo proficiente querer.
Dessa forma, esperar é um ato de fé na dinâmica do existir; esperança é vento que sopra. Esperançar é aprender a ser vento, descobrir-se na arte de soprar.
Comentários
Postar um comentário
Obrigado por sua visita. Agora que terminou a leitura, que tal deixar seu comentário na caixa de comentários abaixo? Sua interação é muito importante. Obrigado.