Resposta do “Quintal”: Bosofão, Flaviano (o vira-latas leviano) e a taxação de Trumpolho
Fábula satírica sobre Flaviano, o vira-lata que late em inglês, apoia as taxações de Trumpolho e chora pelo pai Bosofão. Riam com a crise do canil!
Uma sátira política hilária e afiada que expõe o "complexo de vira-lata" levado ao extremo. Acompanhe as desventuras de Flaviano, o cão entreguista que aplaude a própria fome e reza para pneu, enquanto seu pai Bosofão enfrenta o xerife Chandão. Uma fábula divertida, irônica e indispensável sobre a soberania do nosso “quintal”!
No topo de um muro rachado, sob o sol escaldante da tarde, delirava Flaviano, o leviano. Era um vira-latas mitômano de pelo castanho-desbotado e orelhas caídas, um típico SRD (Sem Raça Definida), mas, se alguém perguntasse, juraria de patas juntas que sua árvore genealógica vinha de seletos cães de caça de Connecticut. O alucinado usava uma gravata borboleta feita de um saco de lixo azul e vermelho, imitando a bandeira americana, e passava as tardes tentando forçar um sotaque nas mofinas. Sempre que o carteiro passava, em vez do tradicional "Au, au!", Flaviano estufava o peito magro e soltava um "Wúf, wúf!" anasalado e patético.
O ódio de Flaviano pelo próprio bairro tinha raízes familiares. Ele era filho de Bosofão, um cachorro velho, ranzinza e cheio de tiques nervosos, que costumava liderar uma trupe de caninos pneuzistas sem noção no seu cercadinho. Bosofão não se conformava com o fato de a matilha ter escolhido Luizão — um cão maduro, barbudo, que já rodou muito pelas ruas e conhece cada buraco do asfalto. Luizão era adorado pelos cães mais simples porque sempre procura dividir tudo de forma justa e defende o quintal que é de todos os locais, a soberania do pedaço.
Incapaz de aceitar as regras da rua, Bosofão, pilhado por Flaviano e sua turma de aloprados negacionistas, tentou dar um golpe na democracia da comunidade. Uma vergonha colossal: invadiram onde podiam e não podiam, morderam o imordível, derrubaram os potes de água e tentaram expulsar Luizão no grito.
Foi aí que as coisas desandaram para a cachorrilha bosofã. Do meio da poeira, surgiu Chandão, um cão de guarda austero, imponente e completamente despelado, cuja careca reluzia ao sol como o reflexo da própria lei. Chandão era o xerife da região e não tolerava bagunça. Sem piscar, o cão despelado soltou um latido grave que fez a cachorrada temer, aplicou um canhotaço certeiro em Bosofão e o mandou direto para a carceragem, sem mimimi, por atentado à sanidade geral.
Desde então, Flaviano e sua turma de aloprados viviam espumando de ódio contra Chandão, acusando o xerife despelado de criar uma "ditadura canina" só porque ele não os deixava morder os outros em paz.
Para Flaviano, a única salvação para o quintal era a intervenção estrangeira. E o dia mais glorioso de sua vida foi quando o portão do casarão do condomínio de luxo se abriu e de lá desceu Trumpolho. Ele era um Mastim imenso, com um topete alaranjado visivelmente artificial que balançava ao vento, bochechas caídas cheias de arrogância e um olhar semicerrado de quem odiava o mundo.
Ao ver seu ídolo, Flaviano, como todo bom sabujo, entrou em transe. Esqueceu qualquer dignidade: jogou-se na poeira de barriga para cima, arrastou-se e começou a abanar a cauda com tanta força que corria o risco de deslocar o quadril. Para mostrar serviço ao novo mestre e vingar o pai preso, Flaviano começou a rosnar e a dar rasteiras nos cães que seguiam Luizão:
— Vaza daqui, seus vira-latas comunistas de coleira! — latia Flaviano, em seu inglês transgênico. — Curvem-se à imponência do meu senhor!
Trumpolho parou. Olhou para baixo com o nojo de quem pisou num chiclete mascado. Soltou um bafo de ração cara e decretou para o condomínio ouvir:
— Para garantir a supremacia do meu quintal, o império vai agir. A partir de hoje, haverá uma taxação de 25% sobre tudo e qualquer coisa: comida, água, raridades... tudinho que pintar por estas bandas. É o imposto da supremacia! E se reclamarem, eu mordo!
A matilha local rosnou, indignada com o roubo descabido. Luizão deu um passo à frente, defendendo que a calçada tinha soberania e que os cães brasileiros não seriam escravizados. Mas Flaviano? Flaviano deu saltos de alegria, uivando de felicidade, balançando o rabiosque.
— Genial! Magnífico! — exclamava o cão leviano, entregando o próprio osso de galinha para o Mastim. — Vejam como Trumpolho é visionário! Ele está nos punindo para o nosso próprio bem! Isso é pedagogia de mercado! Ele confisca nossa água para valorizar a nossa sede! Viva o livre mercado de Trumpolho!
A festa dos aloprados durou pouco. Ao ver a baderna e a tentativa de entrega do patrimônio canino, o chão tremeu novamente. Lá vinha Chandão, caminhando rigidamente com sua silhueta lustrosa e implacável.
Chandão encarou Trumpolho olho no olho. O Mastim alaranjado, que adorava bravatas na internet canina mas detestava cachorros que não tinham medo dele, recuou um passo.
— Latido ameaçador em solo nacional sem autorização das normas é crime de descumprimento soberano! — trovejou Chandão. — E subversão ao líder eleito dá direito a focinheira!
Trumpolho bufou, ajeitou o topete alaranjado e, percebendo que ali o buraco era mais embaixo, resolveu dar meia-volta e entrar na sua casinha com ar-condicionado, batendo o portão.
Ao ver seu ídolo amarelar diante da lei, Flaviano ficou ensandecido. Corria em círculos na calçada, espumando pela boca:
— Ditadura careca! Tirania despelada! O Chandão está cerceando o meu direito sagrado de ser pisoteado por um americano! Quero o meu Bosofão livre e o Trumpolho no comando!
Chandão nem piscou. Caminhou calmamente até Flaviano, aplicou-lhe um rosnado de advertência que o fez enfiar o rabo entre as pernas e confiscou sua gravata de plástico suja por "atentado contra os símbolos do quintal".
O tempo passou. O dono de Trumpolho vendeu a casa e colocou o grande cão na traseira de uma caminhonete; iam embora em definitivo para Miami. Flaviano, magro, sarnento e sem gravata, correu atrás do carro com as forças que lhe restavam, choramingando e implorando para ser levado junto, mesmo que fosse amarrado no escapamento.
Trumpolho olhou para trás pelo vidro. Viu aquela criatura deplorável na lama e rosnou para o dono, como quem diz: "Acelera o carro, que aquele bicho sarnento do sul quer sujar o pneu". A caminhonete arrancou, deixando uma nuvem de poeira sufocante na cara de Flaviano.
O cão leviano caiu sentado na calçada vazia. Luizão aproximou-se com o resto da matilha, olhando para ele com uma mistura de pena e deboche, enquanto dividia um belo pedaço de carne com os outros.
— E aí, Flaviano? Cadê o teu passaporte? Cadê o teu mestre? — perguntou Luizão, calmamente.
Flaviano limpou a poeira dos olhos, olhou para o horizonte onde a caminhonete sumira e, com um sorriso amarelo e delirante, abanou o indigno rabo para a poça de lama:
— Vocês não entendem nada de geopolítica... O grande Trumpolho e o meu pai Bosofão estão me testando! Eles me deixaram aqui como um agente infiltrado para desestabilizar o sistema por dentro... Wúf, wúf! A vitória está próxima!
E assim, Flaviano continuou a latir para a parede, rezando para pneu, com fome, com frio, mas com a certeza absoluta de que, se continuasse sendo um bom vassalo, um dia ganharia um biscuit em dólar.
Como diz o velho ditado: “Quem muito se abaixa, o fundilho aparece”.
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