O querer dos quereres
Quer real ou ilusão do ego? Descubra a parábola do homem dos sacos e o mito do poço de Avaris. O que o seu querer realmente quer? 🧠✨
Explore a diferença entre o querer legítimo e o falso querer neste ensaio profundo. Através de parábolas antigas e referências mitológicas como Midas e Tântalo, analisamos como a cobiça e a ganância criam um ciclo insaciável. Descubra por que a verdadeira conquista não está em acumular, mas em dominar a arte do desquerer e encontrar a plenitude no ser. Ideal para leitores que buscam reflexões filosóficas sobre felicidade e autoconhecimento.
Os quereres humanos formam um dos motores mais complexos da nossa psique. Contrapor o falso querer (nutrido pelo ego, pela inveja e pela insaciabilidade) ao querer legítimo é abrir espaço para uma rica reflexão entre dois estados famélicos: o querer nascido da necessidade real — como a fome verdadeira — e o querer malparido, qual o assombrar da "fome" já saciada, mas que exige sempre mais.
Conta-se do homem que enchia sacos: ele vivia à beira de um rio e carregava um saco de couro onde juntava as dádivas da terra. Certo dia, vendo seu saco cheio de grãos, ficou feliz. Passadas três noites, olhou o recipiente transbordante e sentiu a velha fome dar lugar a um novo vazio — mais voraz e irrefreável que a fome propriamente dita: hiato de quem já tem e, ainda assim, carece do que nem entende o carecer.
Buscou outro e mais outro saco... Contratou vizinhos para carregar os já incontáveis volumes. Abarrotou a casa, perdeu o sono, e a alegria dos primeiros três dias se foi. Tardiamente, assuntou que a felicidade não cabia nos sacos, mas tão somente no raro instante no qual o ser e o ter coincidem e por um segundo se confundem, antes de o querer desembestar, perseguindo a próxima conquista.
O sujeito morreu na riqueza insone, como tantos que enveredam pelas ilusões dos quereres.
Nessa mesma linha, encontramos o mito do poço sem fundo no Reino de Avaris, onde se lia gravado na pedra: “Querer é Poder”.
Viajores de algures, alhures e lonjures chegavam para diante dele se curvar. O mercador queria o dobro do ouro do vizinho; não precisava de nada, era o brilho alheio que lhe ardia nos olhos. O nobre queria ainda mais terras a não mais poder, fustigado por uma ambição cega, devoradora do seu próprio descanso. O fútil buscava aplausos, mesmo que anônimos.
Capcioso, o poço atendia a todos. Escondia, porém, um tributo insuspeito: a concessão do querer vinha casadinha com um querer ainda maior.
O soberano de Avaris possuía tudo o que o poço poderia dar: salas transbordantes de tesouros, mesas fartas de banquetes exóticos. Contudo, a cada garfada, o sabor das iguarias virava cinza em sua boca. Eis o fastio dos satisfeitos, a dormência de quem confunde impulso com propósito.
Um dia, insatisfeito até o último fio de cabelo, o rei retornou à margem e gritou:
— “Fui enganado! Despejei em ti meus quereres e me entregaste o vazio!”
Uma voz profunda e suave desbordou do poço e respondeu:
— “Jamais te dei o que querias. Apenas te ofertei o que cobiçavas. O teu erro foi confundir a febre com a vontade.”
A mitologia recadeja com Midas, Tântalo e as reviravoltas de tanto desejar.
Midas pediu que tudo o que tocasse virasse ouro. Atendido, o pedido lhe arrancou o pão da boca e o abraço da filha — sina de quem confundiu acumular com viver. Enquanto isso, Tântalo foi sentenciado ao suplício de ver a água e o fruto recuarem à sua aproximação: uma fome e sede insaciáveis, a mão estendida para sempre sem nunca conseguir tocar.
São retratos na mais alta definição da mecânica gananciosa: quanto mais o querer se alimenta de si mesmo em vez de se nutrir de sensatez, mais ele se afasta do real querer e se ensimesma na fome incessante — uma fome que já não sabe o que busca, desnoção do só saber que quer.
Na psicologia dos pedintes do poço de Avaris, o dito popular se travestia de uma mutação perversa, nutrindo a ilusão de que a reles posse preenche a existência.
O Querer Invejoso: Não deseja o objeto em si; nascido no olhar alheio, mortifica-se na mais imprópria comparação.
A Usura e a Ganância: Fecham-se num circuito onde a conquista não produz repouso, mas induz ao fastio e ao tédio. Ganha-se o mundo, mas a alma segue depauperada.
O Efeito Hidra: Cada querer conquistado pelo ego faz nascer outros três quereres artificiosos. O ter insaciável devora o ser combalido.
Dessa forma, quando a cobiça finca bandeira no topo da montanha, a vista não entrega paz: traz apenas o medo da perda do pico ou a raiva por existirem montanhas de quereres mais altos no vasto horizonte.
"Querer é poder": eis as faces ambíguas de um ditado. Por um lado, pode ser compreendido como uma convocação: quem quer de verdade, consegue — é o querer que alavanca, disciplina, primeiro degrau de qualquer conquista. Essa percepção tem sua verdade: sem desejo não há movimento, e muitas realizações começam num querer que teima e se recusa a desistir.
Contudo, não podemos ignorar sua outra face, incômoda, que a sabedoria popular igualmente explicita: "querer é poder" torna-se a desculpa perfeita para quem já tem poder culpar quem não tem por não ter querido o suficiente. Essa versão ignora que existe gente que quer e não pode por contingências da vida. Usado sem cuidado, o dito faz-se crueldade disfarçada de motivação. As duas feições convivem na mesma frase, e cabe a quem a repete escolher de qual delas reveste o seu dizer.
Poder não é acumular; poder é saber o que desquerer. Libertar-se da obrigação de desejar o que o mero impulso dita é a maior das conquistas. A grande tragédia humana não é não alcançar o que se quer; é alcançar o falso querer e descobrir, com atraso, que ele nunca se basta.
A ciência do comportamento chama essa esteira insaciável do homem do saco e do povo do poço de adaptação hedônica. O prazer de uma conquista tem prazo de validade; o cérebro rapidamente se acostuma ao novo patamar e volta a exigir mais só para sentir de novo. É uma corrida onde a paisagem não muda, pois a linha de chegada se move junto com quem corre.
Existe, contudo, uma distinção fundamental: o querer que desponta para fora — para o objeto, o cargo, a posse, a inveja do que o outro ostenta — e o querer que aponta para dentro, para um sentido que a pessoa escolheu por si. O primeiro é insaciável porque compara; o segundo é estável porque não implica ultrapassar ninguém. Não é por acaso que as tradições filosóficas, do budismo aos estoicos, identificaram no apego ao resultado do desejo a raiz do sofrimento.
O querer verdadeiro se reconhece por um sinal simples: continua fazendo sentido mesmo quando ninguém está vendo, mesmo sem o troféu, mesmo sem a inveja alheia como plateia. É o querer de quem planta uma árvore cuja sombra não vai aproveitar, ou de quem entrega um trabalho bem-feito pelo simples respeito à obra.
Esse querer não promete êxtase permanente, mas não deixa, depois de realizado, aquele gosto de cinza diante dos sacos cheios de ilusão. Ele não nasce do vazio que busca ser preenchido por fantasias exteriores, mas da plenitude de quem já se reconhece inteiro. É o querer do artista que pinta, musica, encena ou escreve pelo puro prazer do fazer; do amante que ama pela capacidade de se entregar, não de possuir.
Ao ser realizado, o querer verdadeiro descansa — não porque parou de desejar, mas porque desejou o certo.
Afinal, nossos personagens nunca se perguntaram o essencial, e por isso morreram cercados de destroços existenciais. Resta-nos a provocação: O que quer o seu querer?
Você se identificou mais com o homem dos sacos ou com o povo do poço de Avaris? Conte-me sobre um "falso querer" que você já realizou.
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