Não quero. Eu quero...
Uma reflexão poética sobre liberdade, fragilidade e realidade: o desafio de aceitar as contradições e a riqueza de ser humano.
A liberdade, a beleza, a força e as contradições da existência humana. Entre metáforas da natureza e questionamentos filosóficos, a poética musicada propõe um olhar realista sobre nossas fragilidades, transformações e responsabilidades. Descubra por que ser humano é aceitar a imperfeição, enfrentar riscos e construir a própria maneira de viver.
Não quero ser livre como um pássaro!
O mundo anda cheio de gaiolas, alçapões, atiradeiras...
Não quero a beleza das flores!
Ela é por demais fugaz,
costuma terminar como adorno morto
em jarros belos, mas frios.
Não quero a paciência das pedras!
Pedras não se modificam,
tardam imutáveis,
aguardando mudanças exteriores.
Não quero a força dos elementos!
Terra, fogo, ar e água
são por demais poderosos.
Não quero didáticas metáforas!
Abstrações podem distrair a razão.
Quero a liberdade de ser humano!
Me expor, correr riscos humanos.
Quero a beleza humana!
Que enruga,
envelhece experienciando o tempo.
Quero a impaciência humana!
Desacomodada, inconformada;
inconstante, mutante, potencial metamorfose.
Quero a força de ser humano!
Frágil poder mortal,
que nos obriga humildes, cooperativos, interdependentes.
Quero o pragmatismo de ser humano!
A metodologia da realidade;
lucidez dos fatos,
capaz de acordar sonhos,
sepultar ilusões...
Quero simplesmente
ser humano!
Este poema postado aqui em 21 de junho de 2014, revisado e musicado em 12 de outubro de 2026, não rejeita propriamente a liberdade, a beleza, a paciência ou a força. Ele questiona a idealização dessas qualidades quando transformadas em modelos abstratos para a vida humana.
Liberdade: o pássaro parece livre, mas o mundo está cheio de gaiolas, armadilhas e ameaças. A liberdade humana não é uma condição garantida; envolve exposição, escolha e risco.
Beleza: a flor é bela, mas sua beleza é efêmera e pode terminar aprisionada num vaso ornamental. A imagem questiona uma beleza reduzida à aparência e separada da vida.
Paciência: a pedra resiste, mas sua imobilidade não é necessariamente virtude. O poema prefere a inquietação de quem pode se transformar e participar das mudanças.
Força: os elementos naturais são poderosos, porém essa potência não equivale à capacidade humana de reconhecer limites, cooperar e agir conscientemente.
Pragmatismo: o desfecho não propõe abandonar os sonhos, mas confrontá-los com os fatos. A lucidez pode despertar projetos possíveis e sepultar ilusões que impedem a ação.
A progressão narrativa é importante: o texto começa com uma sequência de recusas — “Não quero” — e avança para afirmações de identidade — “Quero”. Essa mudança transforma a negação em escolha consciente. O eu lírico deixa de definir aquilo que não deseja imitar e passa a afirmar aquilo que aceita viver.
Há também uma tensão filosófica produtiva: o poema rejeita as metáforas didáticas, mas constrói sua própria reflexão por meio de pássaros, flores, pedras e elementos. Isso não precisa ser entendido como contradição involuntária. A questão não é abolir os símbolos, mas impedir que eles substituam a realidade que deveriam ajudar a compreender.
A ideia mais contundente está na fragilidade humana. A mortalidade, longe de aparecer apenas como defeito, surge como condição que pode favorecer a humildade, a cooperação e a interdependência. Somos limitados e, por isso mesmo, precisamos uns dos outros.
O poema tampouco defende um realismo frio ou a desistência dos sonhos. Sua proposta é mais exigente: conservar a capacidade de sonhar sem perder o contato com os fatos; aceitar a imperfeição sem transformar a acomodação em virtude; reconhecer a própria fragilidade sem renunciar à ação.
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Também quero preservar ..." a beleza humana! / Que enruga, / Envelhece experienciando o tempo./Quero a impaciência humana! / Desacomodada, inconformada; / inconstante, mutante, potencial metamorfose..."
ResponderExcluirNa dualidade do "Querer e do Não Querer" você superlativou-se em seu texto, Antonio! Surpreendente mensagem!
Abraços.
Precisamos nos concentrar na pluralidade singular de ser humano. Aprender, viver, sobreviver, ser humano.
ExcluirUm superlativo obrigadoooooo!
Um abração.
Oi, Apon, como vai?
ResponderExcluirSeu poema me surpreendeu... por vezes me pego invejando a constância da natureza, mas de fato, o ser humano é mais surpreendente e evolutivo. Um abraço!
O ser humano tem vontade, livre arbítrio, capacidade de transformar transformando-se. É agente, autor do seu protagonismo.
ExcluirTudo bem, tudo em paz.
Um abração e uma boa semana.